domingo, 9 de agosto de 2015

As Pinturas de Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

Uma das características que mais diferenciam um grande cineasta é sua capacidade de desenvolver cada plano com uma pintura, e Paul Thomas Anderson faz isso com maestria em uma de suas obras-primas, Sangue Negro (2007).
Segue alguns dos quadros mais bonitos do filme, todos dignos de pendurar na parede:

Obs: As imagens podem ser apreciadas melhor em tamanho aumentado, basta clicar em cima.








Uma imagem que define a essência do personagem vivido por Daniel Day-Lewis.






Uma sutil homenagem ao "Rastros de Ódio", de John Ford.
Não foi uma crítica, mas não posso deixar de avaliar: Obra-prima.

João Vitor, 9 de Agosto de 2015.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crítica: Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman



Robert Altman (1925 – 2006) é um cineasta pelo qual eu tenho um respeito muito grande, muito mais pela sua influência do que pelos filmes em si. Admito não ser fã de “Nashville (1975)”, embora goste de “MASH (1970)”, mas também tenho sérios problemas com “Quando os Homens São Homens (1971)”, tido por muitos (inclusive por profissionais que admiro) como uma obra-prima.



Mas independente do meu gosto pelas suas obras, o fato é que ele sempre soube o que estava fazendo, e tinha a capacidade de se manter no controle de sua narrativa mesmo em projetos que nas mãos de outros diretores estariam fadados ao fracasso. E muito mais do que isso, sua influência e importância inspiraram vários de meus diretores favoritos, destaque para Paul Thomas Anderson que em sua obra-prima “Magnólia (1999)” fez várias referências diretas à obra do Altman, e qualquer diretor que tenha influenciado, ainda que levemente, este que é um dos meus filmes preferidos, tem o meu respeito inquestionável.

Assassinato em Gosford Park se passa em uma casa de campo, onde vários membros da alta sociedade britânica, junto com seus serviçais, se reúnem para uma festa de fim de semana, e eventualmente, como o título brasileiro faz questão de adiantar, um assassinato acontece e todos viram suspeitos.

É fácil ler a sinopse do filme, ou apenas ouvir seu título traduzido (o nome original é apenas Gosford Park) e presumir que se trata de um típico suspense policial, onde todos os personagens são suspeitos e no fim o culpado é o menos provável deles.


Mas não se engane, o assassinato só acontece após metade do filme ter se passado, e mesmo quando ocorre não tem tanta importância assim. O filme é muito mais sobre os personagens e sobre a frágil camada de elegância que serve para esconder a podridão dentro deles. Nisto, é impossível não compará-lo ao excelente “Festa de Família (1998)” (foto ao lado), de Thomas Vinterberg, o filme que deu início ao Dogma 95 na Dinamarca, e tinha uma proposta similar.



Os inúmeros personagens de Gosford Park são muito bem desenvolvidos, e Altman consegue transitar pelos seus conflitos com total controle, como já havia demonstrado em vários de seus filmes anteriores. Mas ainda assim, o fato é que o número de personagens é muito alto, e por mais que sejam todos complexos, fica impossível se importar com seus destinos e escolhas, pois não conseguem gerar nenhuma empatia. E isso dá origem ao que é meu maior problema com o Altman: a frieza excessiva.

Eu não tenho problema nenhum com filmes frios, inclusive muitos de meus títulos preferidos têm a frieza como uma das características principais. Além disso, o já citado “Magnólia (1999)” tem como um dos fortes a capacidade de desenvolver simultaneamente um grande número de personagens. Mas Altman faz isso de uma maneira que chegou um ponto do filme em que eu já não estava me importando nem um pouco em relação ao que poderia acontecer com alguém, e nem me perguntando quem cometeu o crime e por quê.


Isso também me afetou muito em seus filmes anteriores. Em “Nashville (1975)”, eu passei duas horas e meia admirando a capacidade do filme de passar para o espectador o clima e o contexto em que vivem os personagens, mas sem conseguir sentir qualquer outra emoção. O mesmo vale para “Quando os Homens São Homens (1971)”, que tem uma trilha sonora incrível e um clima interessantíssimo e dificílimo de ser criado, mas que também não consegue causar o mínimo envolvimento emocional com a trama ou os personagens, o que é uma pena.


A primeira metade do filme se dedica basicamente à construção do clima e ao desenvolvimento e apresentação dos personagens. Já na segunda metade (após o assassinato), a trama vira um suspense policial clássico de “encontrar o assassino”, mas sempre funcionando dentro do contexto e das regras criadas pela primeira parte.

Nenhuma das duas metades é particularmente marcante. A primeira se prejudica pelo excesso de personagens, ainda que a narrativa seja bem conduzida, enquanto a segunda é menos interessante do que qualquer trama policial deveria ser, ainda que traga um ou outro bom momento.

Como um todo, Assassinato em Gosford Park é um bom filme, mas excessivamente frio, que se prejudica pelo seu excesso de personagens ainda que se preocupe em criar um cuidadoso clima.  É uma obra que pode ser admirada, mas em nenhum momento sentida.

O.K
João Vitor, 30 de Julho de 2015.

sábado, 25 de julho de 2015

Crítica: Homem Formiga, de Peyton Reed

              

     Homem Formiga

                         Novo filme da Marvel diverte, mas só.


Nos últimos anos a Marvel vem criando um enorme universo cinematográfico, formado pela união de várias franquias de diferentes super-heróis, onde cada novo filme é uma continuação não só da sua própria franquia, mas também do universo como um todo. Não deixa de ser uma manobra arriscada, tendo em vista que para aproveitar 100% os novos filmes você tem que ter visto um grande número de outros, inclusive de franquias em que você talvez não esteja tão interessado. Mas levando em consideração a bilheteria alcançada pelos filmes, não restam dúvidas de que isso vem funcionando, o que é compreensível já que nos últimos anos as franquias deram origem a filmes bem interessantes e únicos, como “Capitão América 2: O Soldado Invernal” e “Guardiões da Galáxia”. Mas também alguns esforços acabaram resultando em filmes medianos, que se enfraqueciam justamente pelo fato de se sentirem na obrigação de se encaixarem no universo criado pelos outros filmes. E é nesse segundo grupo que entra este novo “Homem Formiga”.



Talvez a maior dificuldade de cada novo filme de super-herói (principalmente para as franquias que estão começando agora) seja conseguir soar original, já que as principais “fórmulas” para criar heróis e, mais ainda, vilões, já foram utilizadas em outros filmes. Então quando logo nos primeiros minutos de projeção somos apresentados a um cientista (Michael Douglas) brilhante que se sente culpado pela perda de alguém querido e luta para que sua descoberta não caia em mãos erradas, um criminoso (Paul Rudd) que deseja deixar o crime para se dedicar à sua filha, e um homem ganancioso (Corey Stoll) que quer usar a tecnologia para enriquecer sem pensar nas consequências, podemos então perceber que não estamos diante de um filme particularmente original.


Mas isso acaba nem sendo um problema tão sério assim, já que desde o início o diretor Peyton Reed conduz a narrativa com total segurança, brincando muito bem com o gênero Assalto, e utilizando muito bem o 3D (principalmente nos momentos em que o herói está do tamanho de formigas), sem apelar para câmera tremida e sempre deixando claro para o espectador durante as cenas de ação o que está acontecendo e quem está aonde, algo que vem se mostrando uma grande dificuldade para novos diretores. Mas ainda assim, não posso deixar de imaginar o que Edgar Wright (que se demitiu pouco antes do início das filmagens devido a diferenças criativas) estava preparando, levando em consideração seus antecedentes (“Scott Pilgrim Contra o Mundo” e “Todo Mundo Quase Morto”) e sua facilidade em brincar com gêneros e elementos narrativos de quadrinhos. Mas é claro que isto também não diminui o trabalho de Reed, que é competente de qualquer maneira.


O elenco do filme é extremamente talentoso, mas infelizmente não é o bastante para encobrir as caricaturas que são os personagens (como apontei há dois parágrafos acima), mas fazem o que pode para fazer soarem genuínos os diálogos expositivos e a trama extremamente previsível.


Dentre os personagens, o maior erro é sem dúvidas o amigo do herói, Luís (Michael Peña), que é a caricatura do latino que já foi utilizada por Hollywood em inúmeros outros filmes. Além do mais, ele existe única e exclusivamente para alívio cômico, e ainda que protagonize alguns bons momentos (como quando conta ao amigo o enorme “telefone sem fio” que o fez ficar sabendo de determinado assunto), também é o responsável por muitas das piores piadas do roteiro, e o fato de ele ser o responsável pela última fala do filme, que imediatamente traz os créditos finais, faz com que o espectador saia da sala com um gosto amargo.


Mas talvez o principal erro do filme seja justamente a necessidade de se encaixar no universo Marvel e garantir futuras continuações, já que as ligações com os filmes anteriores soam gratuitas e tiram o foco da trama principal, e o filme inteiro parece servir apenas para apresentar os personagens de modo a poder usá-los nos próximos projetos de outras franquias. Muito provavelmente o resultado teria seria muito melhor se a trama se passasse em um universo paralelo e se preocupasse em se sustentar sozinha com bons personagens e uma premissa original, sem se preocupar com uma possível sequência.


Aliás, ao que tudo indica o Homem Formiga e mais alguns de seus principais personagens devem estar presentes nos próximos filmes da Marvel. Se o excesso de personagens já era um problema em Vingadores 2, Vingadores 3 está indo para um beco sem saída.

Mas apesar de todos esses problemas, “Homem Formiga” é sim um filme divertido. A narrativa é leve e agradável, as cenas de ação funcionam, e o clímax, mesmo que um pouco maior do que o necessário, é inventivo e consegue empolgar. Além do mais, Paul Rudd tem um talento cômico nato, algo que o filme explora muito bem, impedindo que a narrativa fique desnecessariamente artificialmente e densa.

Já a cena em que o herói encolhe pela primeira vez é, sem dúvida, um dos melhores momentos em 3D que em já vi no cinema. Aliás, as todas as cenas que trazem o herói em tamanho reduzido são de longe as melhores do filme.

As referências (tanto a outros filmes da Marvel quanto várias outras coisas) funcionam esporadicamente (destaque para a menção sutil à recente notícia de que o Homem Aranha vai se juntar aos Vingadores), mas em alguns momentos o filme faz questão de esticá-las até que percam à graça.



Mesmo se prejudicando pela necessidade de se encaixar no universo Marvel, “Homem Formiga” é um filme divertido e agradável, que sem dúvidas não irá decepcionar os fãs de quadrinho que aguardam ansiosamente cada novo filme de super-herói. Agora só resta torcer para que, assim como “Capitão América” e “Thor”, a franquia consiga melhorar em sua inevitável continuação.

P.S: A cena durante os créditos só existe porque já virou obrigação de todo filme da Marvel, já que o próprio filme já dá inúmeras pistas de aquilo iria acontecer. Já a cena pós-créditos nada mais é do que um “mini-tease-trailer” para o filme do Capitão América do ano que vem.

O.K

João Vitor, 25 de Julho de 2015.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Crítica: Dúvida, de John Patrick Shanley

“Dúvida” é um filme que se passa em uma escola católica, nos anos 60, e mostra os esforços da irmã Aloysius (Streep) para expulsar o “moderno” padre Flynn (Seymour Hoffman), após irmã James (Adams) dar motivos para suspeitar que ele possa ter molestado o único garoto negro da escola.


Como não poderia deixar de ser, o destaque do filme fica por conta dos atores (o elenco traz: Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis e Meryl Streep), mas os méritos não são só deles, o filme é realmente bom.


O roteiro, baseado em uma peça de teatro do próprio diretor, acerta por tirar o espectador de sua zona de conforto e o obrigar a pensar e a julgar os personagens, ainda que aqui e ali peque pelo excesso de unidimensionalidade (algo que é disfarçado pelo trabalho impecável e detalhista dos atores).

Já os alívios cômicos, presentes para evitar que a narrativa se torne carregada demais, falham feio, soando gratuitos e tolos, e deixam o filme com um tom um pouco mais indeciso e irregular.


O diretor John Patrick Shanley consegue conduzir a trama em um ritmo agradável e ainda acerta por incluir detalhes mais sofisticados que enriquecem a narrativa, como o insistente toque de telefone presente em uma tensa conversa, que contribui para a criação da atmosfera desconfortável, ou os estalos de uma lâmpada acompanhando uma discussão mais acalorada.


Acertando ainda por se encerrar com um final coerente, mas que provavelmente pode desagradar grande parte do público, Dúvida se mostra um filme diferenciado, que traz um impressionante duelo de atores e um roteiro muito competente, ainda que irregular.


Bom.
João Vitor, 9 de Junho de 2015.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Interpretações sobre Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro G. Iñárritu


Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Desmistificando o homem-pássaro


O objetivo deste post é discutir sobre as diferentes interpretações possíveis sobre Birdman, novo filme de Alejandro G. Iñárritu, além de sua temática e seu ambíguo final.

É importante lembrar que todas as interpretações, desde que justificadas com elementos do filme, são igualmente válidas, e as ideias aqui expostas não devem ser encaradas como uma versão definitiva sobre a obra.

AVISO: Se você ainda não assistiu ao filme, não leia o texto, pois contém spoilers.


A primeira coisa que chama a atenção no filme são seus créditos inicias: ao fazer as letras desaparecerem aos poucos, Iñárritu cria por alguns segundos a seguinte imagem:


Algo que à primeira vista me pareceu um pequeno floreio descartável do diretor (principalmente pelo fato de “Amor” estar escrito em seu idioma de origem, o espanhol, e não o inglês que é falado durante a projeção), mas que se mostrou muito mais interessante levando em consideração o desenvolvimento da trama, podendo exercer diversas funções.

A primeira delas é a mais óbvia: a palavra é uma referencia a uma das temáticas do filme – o amor (a peça que Riggan está adaptando se chama “De Que Falamos Quando Falamos de Amor”; ele quer se sentir amado, admirado; o amor da filha é algo que ele tenta conquistar o filme inteiro).

A segunda possibilidade é um pouco mais simples: com as letra na tela é possível formar a frase “I am Birdman” (Eu sou Birdman) – algo curioso, mas descartável.

E a terceira é a frase: “am I Bird or Man?” (Eu sou um pássaro ou um homem?), que já traz uma discussão temática mais complexa e interessante, algo que voltarei a abordar daqui a pouco.

Indo para o filme em si, a primeira imagem que vemos é a de um meteoro caindo em direção ao solo – uma metáfora clara da carreira do protagonista, que está em constante decadência há anos.


Ao sermos apresentados aos personagens nos damos conta de que o filme foi feito para simular um único plano-sequência, ou seja, são duas horas de um take só sem cortes (aparentes, é claro). Isso é algo que só pela técnica já vale a pena, mas neste caso, consegue ser relevante não só visual quanto tematicamente, já que acaba simulando uma peça de teatro (o filme é sobre a adaptação de uma peça) e dando a narrativa um ritmo frenético, fazendo o espectador compartilhar os sentimentos de urgência experimentados pelo protagonista.


A escolha de filmar em plano-sequência também é um desafio enorme para os atores, pois com uma direção convencional, ao gravar a mesma cena diversas vezes, o montador tem a opção de pegar uma fala de um take, uma reação de outro, e assim montar uma interpretação uniforme e sempre no máximo que o ator pode oferecer. Já ao gravar tudo de uma vez, os atores precisam se manter no máximo de sua técnica a todo o momento, não dando espaço para erros – o que torna o trabalho do elenco, em especial a performance central de Michael Keaton, ainda mais admirável.

A ausência de uma montagem convencional acaba também apresentando um desafio para a construção da tensão e do ritmo da narrativa, já que não é possível o uso de cortes rápidos, e isso acaba dando uma responsabilidade ainda maior à trilha sonora. Usando, praticamente, apenas ritmos de bateria o filme todo, Antonio Sanchez faz um trabalho admirável ao representar com seus solos a confusão mental que se passa a todo o momento pela cabeça do protagonista, e a opção de brincar com a diegese da música mostrando o baterista tocando a trilha sonora dentro do filme, é uma ironia interessante e uma ótima escolha por parte do diretor.







Outra coisa interessante em Birdman é a sua metalinguagem, especialmente na escolha dos atores: Michael Keaton também ficou famoso interpretando um super-herói nos anos 90, e desde então tem dificuldades para conseguir papeis relevantes, enquanto Edward Norton é conhecido por ter um temperamento difícil, assim como o seu personagem.








Interpretações sobre o final:

O final do filme pode parecer em um primeiro momento estranho, já que parece indicar que Riggan realmente era capaz de voar, algo que o filme mesmo já havia desmentido (logo após ele fazer um longo voo pelas ruas da cidade até chegar ao teatro, vemos um taxista correndo atrás dele pedindo o dinheiro da corrida – ou seja, o “voo” só existiu em sua cabeça, pois o que ele realmente estava fazendo era andar de carro).








Isso deixa claro que pelo menos em alguns momentos (os que mostram coisas “sobrenaturais”, como os poderes da mente de Riggan) o filme assume o ponto de vista do personagem, e nos mostra o que está passando em sua cabeça, e não o que realmente está acontecendo.

Sendo assim, se Riggan demonstrasse realmente saber voar no final do filme, o roteiro estaria se contradizendo, o que não faria sentido. Então a cena final não deve ser encarada de maneira literal, mas ao pensar sobre o que ela realmente pode significar, só pude pensar em duas opções plausíveis.

1ª Interpretação:

A primeira interpretação seria: a cena final não aconteceu realmente, Riggan não se jogou pela janela do quarto e Sam não retornou ao local (ela não tinha motivo aparente para fazer isso), e seu olhar orgulhoso ao ver o pai “voar” representa o seu sentimento de felicidade por ele finalmente ter alcançado o que queria: o sucesso.

Ou seja, a cena é uma representação do que se passava pela cabeça dos personagens: Riggan finalmente alcançou a fama e se sentiu realizado, e Sam estava orgulhosa – simples assim.
E o fato de esse sucesso ser representado como um voo remente diretamente ao Birdman (a antiga glória do protagonista), e também acaba gerando uma ironia temática interessante (lembra-se do “Bird or Man?” do início?)

Outra coisa que prova esse ponto de vista é o fato do “novo” nariz de Riggan o deixar parecido com o traje do Birdman (que representa para ele o único momento de sua vida em que ele alcançou o sucesso e foi querido pelas pessoas), e ao perceber isso ele “voa”.


2ª Interpretação: (créditos para o site Weltretter, que em seu texto sobre o filme me fez olhar para o filme dessa maneira. Link aqui).

A segunda opção já é um pouco mais complexa, mas também mais coerente a meu ver, já que não apenas justifica o final como também dá uma maior coerência a outros acontecimentos durante o filme.

A possibilidade é: o filme TODO se passa sob o ponto de vista de Riggan, e o que vemos não está necessariamente acontecendo daquele jeito (em alguns momentos, talvez), mas é a maneira com que o personagem está vendo.

Sendo assim, faz sentido, como escrevi anteriormente, que as cenas em que ele demonstra seu poder (ao mover coisas e voar) representem sua imaginação, e a cena do taxi funciona como uma maneira do diretor nos lembrar de que estamos dentro da cabeça do personagem. E se considerarmos essa interpretação, o plano-sequência ganha mais uma justificativa (afinal, a mente de Riggan não pára) e os únicos corte visíveis do filme (os que acontecem antes da cena final) também ocorrem por uma razão: o personagem está inconsciente.


As cenas em que o protagonista não aparece também não são mostradas como elas realmente aconteceram e sim como ele imagina: o namoro de Sam com Mike, por exemplo, representa seu ciúme de que sua filha se envolva com alguém tão complicado.








Já a cena evolvendo as personagens de Naomi Watts e Andrea Riseborough representa o seu desejo de ser importante (nesse momento, a aprovação dele se mostra importante para as duas personagens), e o beijo entre elas só intensifica essa possibilidade, pois pode representar um pensamento de Riggan, já que este parece se sentir atraído pelas duas.







Outra coisa que essa interpretação explica é a figura da crítica, que é apresentada de maneira caricatural, disposta a acabar com a peça a qualquer custo. Se fôssemos encarar isso de maneira literal, seria um erro por parte do filme, mas levando em consideração de que tudo é contado sob o ponto de vista do protagonista, essa caricatura já faz sentido: ele a enxerga desse modo, disposta a arruiná-lo. Mas ao escrever uma crítica positiva, a personagem demonstra que é capaz de reconhecer a qualidade da peça, ou seja, o que ela havia falado antes não aconteceu realmente, foi apenas o que o protagonista entendeu, ou quis ouvir (para justificar uma possível crítica ruim, provavelmente).


Essa interpretação também abre a possibilidade para dois finais distintos – um feliz, e um pessimista (você escolhe em qual prefere acreditar).

O feliz é o que eu já havia proposto na primeira interpretação, e que também faz sentido nesse ponto de vista: Riggan não estava realmente voando e nem Sam estava realmente na janela – ele apenas sente como estivesse finalmente voando e ela se mostra orgulhosa.

Mas é o final pessimista que se mostra mais completo e fascinante: a figura do Birdman aparece várias vezes durante o filme falando com o protagonista (o humilhando, na maioria das vezes), e o que o site Weltretter (link aqui) propôs e me pareceu extremamente coerente, é que essa figura nada mais é do que a depressão.

 Ela está constantemente tentando deixar o personagem desestimulado, deprimido, mas mesmo assim ele consegue passar por cima e fazer uma incrível peça, que o faz alcançar o que ele sempre quis. Mas ao ir ao banheiro do hospital e encontrar o Birdman, Riggan se dá conta de que nem mesmo o sucesso é capaz de livrá-lo de sua doença, então comete suicídio. E o que Sam realmente vê da janela do hospital é seu pai morto, mas como o filme é sob o ponto de vista dele (mesmo quando ele não está em cena), vemos a personagem reagir da maneira com que ele gostaria que ela reagisse: feliz e orgulhosa, pois o pai conseguiu o sucesso que queria e agora finalmente encontrou a paz.




É um final triste e pessimista, mas, pelo menos a meu ver, é também o mais coerente em explicar cada detalhe dessa fascinante e inesquecível obra-prima.

Esse texto não foi bem uma crítica, mas eu não poderia deixar de avaliar: Excelente!

João Vitor, 6 de Março de 2015.