quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Lista: Melhores Filmes Lançados em 2014

A lista a seguir leva em consideração apenas filmes lançados nos cinemas brasileiros durante o ano de 2014. Filmes como "Vício Inerente", "Birdman" e "A Teoria de Tudo" não entram, pois, apesar de serem deste ano, só chegam ao Brasil em 2015.

  1º Garota Exemplar – David Fincher:

Um dos melhores filmes de David Fincher até aqui, suspense de primeiro nível, atual e extremamente racional e frio.


2º O Homem Duplicado – Denis Villeneuve: 

Me lembrou muito Cidade dos Sonhos (2001, David Lynch), intrigante desde o início, mantêm um constante clima de suspense quase aterrorizante, e possui um dos finais mais marcantes dos últimos anos. Denis Villeneuve fez o melhor filme do ano passado (Os Suspeitos), e quase consegue repetir a proeza.


3º Ela – Spike Jonze: 

Se há alguém verdadeiramente original no cinema americano, este alguém é Spike Jonze. “Ela” é seu melhor filme até aqui, com um visual belíssimo e melancólico, o longa é instigante e sem dúvidas será lembrado por muitos anos.


4º Boyhood – Richard Linklater: 

Sem sacrificar o humanismo e a sensibilidade em troca de uma trama de filme mais "convencional", Boyhood é um retrato tão claro de uma infância e juventude que chega a ser quase documental.


5º Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum – Joel e Ethan Coen: 

Talvez o melhor dos irmãos Coen desde “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, “Inside Llewyn Davis” tem uma sensacional fotografia (que dessa vez não é de Roger Deakins, e sim de Bruno Delbonnel) e um toque de humor negro pessimista que só a dupla sabe fazer. Um dos maiores injustiçados do Oscar 2014.


6º O Lobo Atrás da Porta – Fernando Coimbra: 

Suspense de alto nível, com trama envolvente, personagens complexos e um final marcante. Uma pena que tenha chegado a tão poucas salas no país.


7º O Lobo de Wall Street – Martin Scorsese: 

Scorsese acertando de novo. Uma espécie de “Os Bons Companheiros” contemporâneo, “O Lobo de Wall Street” se sustenta por 3 horas no mesmo ritmo, além de trazer uma das melhores (talvez, a melhor) atuações de Leonardo DiCaprio.


8º Hoje Eu Quero Voltar Sozinho – Daniel Ribeiro: 


Candidato brasileiro ao Oscar deste ano (infelizmente, já eliminado), é um filme absolutamente simples, mas consegue encantar por essa simplicidade, além de trazer ótimas atuações e uma direção cuidadosa.


9º O Abutre – Dan Gilroy: 

Filme tenso ao extreme, frio e cruel. Funcionando como um estudo de personagem, o primeiro longa dirigido por Dan Gilroy ainda traz uma das melhores atuações da carreira de Jake Gyllenhaal.


10º X-Men: Dias de um Futuro Esquecido – Bryan Singer: 

Ainda está atrás de seu antecessor (X-Men Primeira Classe, 2011, Matthew Vaughn), mas ainda assim resgata discussões dos primeiros filmes da série e trás impressionantes cenas de ação. Sem dúvidas o melhor do ano no “subgênero” Super-Herói.


Menções Honrosas (outros ótimos filmes lançados este ano e que merecem ser vistos - em ordem de preferência):

Entre Nós – Paulo Morelli
Praia do Futuro – Karim Ainouz
7 Caixas – Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori
Planeta dos Macacos: O Confronto – Matt Reeves
O Grande Hotel Budapeste – Wes Anderson
Junho – O Mês Que Abalou o Brasil – João Wainer
Sob a Pele – Jonathan Glazer
Magia Ao Luar – Woody Allen
Capitão América 2: O Soldado Invernal – Anthony e Joe Russo
Alemão – José Eduardo Belmonte
Debi e Lóide 2 – Bobby e Peter Farrelly
Noé – Darren Aronofsky
Robocop – José Padilha
12 Anos de Escravidão – Steve McQueen
O Espetacular Homem Aranha 2: A Ameaça de Electro – Marc Webb
Guardiões da Galáxia – James Gunn
Alabama Monroe – Felix van Groeningen         
Interestelar – Cristopher Nolan
Mesmo Se Nada Der Certo – John Carney
The Rover – A Caçada – David Michôd
Frank – Lenny Abrahamson
Como Treinar Seu Dragão 2 – Dean DeBlois


João Vitor, 25 de Dezembro de 2014.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Resenha: Uma Nova Esperança (livro), de George Lucas

Uma Nova Esperança

Desnecessário, porém agradável


Como fã de Star Wars, principalmente da trilogia original, me interessei por “Star Wars: A Trilogia” (livro) desde o seu lançamento. E ao chegar ao fim do primeiro volume (“Uma Nova Esperança”, de George Lucas – o criador da história e diretor de 4 dos 6 filmes) fico com a impressão de que a decisão de levar a obra  cinematográfica para a literatura foi unicamente comercial, desperdiçando assim a chance de expandir seu fascinante universo, ainda que consiga agradar seu público alvo: os fãs.


A sensação que tive ao ler o livro foi que estava lendo uma versão mais detalhada do roteiro do filme. Sem trazer quase nada de novo, George Lucas se limita a reproduzir todas as cenas, que já estão marcadas na memória dos fãs, exatamente como elas foram feitas originalmente no cinema, e durante suas descrições perde a oportunidade de trazer aquilo que sempre diferenciam as obras literárias das cinematográficas: detalhes e curiosidades sobre aquele universo que, como os próprios filmes mostram, é incrível. A única exceção é quando fala sobre os povos que habitavam o local onde no momento se encontravam as tropas rebeldes, e quando explica porque há enormes abismos em instalações espaciais.

George Lucas
Mesmo seguindo à risca todos os passos do filme, Lucas ainda demonstra um medo quase infantil de ser incompreendido, algo que fica claro nos seguintes trechos: Pag. 134: “Depois do que lhes pareceu horas, mas na verdade foram apenas minutos, a porta se abriu (...)” (Qual é a necessidade de se informar que na verdade foram apenas alguns minutos? O contexto e o termo “pareceu” já não deixam isso claro? Leia de novo ignorando esse pedaço e veja se não faz sentido.) Pag. 136: “A cela 2.187, aparentemente, não existia. Só que ela existia sim e ele a encontrou quando(...)” (Para quê afirmar “ela existia sim”? Ao dizer que ele a encontrou isso já fica claro. Leia o trecho dessa forma: “A cela 2.187, aparentemente não existia, porém ele a encontrou quando...”. Não faz mais sentido?). Detalhes assim acabam demonstrando a inexperiência do autor no que se refere a livros, e acaba deixando a linguagem mais infantil e tola.

Outro ponto que demonstra sua inexperiência e atrapalha a leitura é sua mania de variar o ponto de vista no meio de um acontecimento. Isso até funciona em alguns momentos (seria impossível entender por completo o clímax, por exemplo, se ele fosse narrado todo de um único ponto de vista), mas em outros é desastroso e desagradável, como na cena inicial, onde Lucas parece ter pressa em mostrar logo todos os personagens e acaba deixando os acontecimentos sem foco algum, indo de um lado para o outro sem necessidade alguma.

Dito isso, é necessário elogiar como, apesar dos vários erros, o livro nunca se torna desagradável de se ler, e por mais que soe desnecessário, diverte o suficiente para não parecer uma perda de tempo. O toque a mais de violência também foi um acerto do autor, que se beneficiando das vantagens proporcionadas pela escrita, aproveita para deixar as cenas de batalhas mais reais, colocando descrições de “crânios despedaçados com metal derretido” que certamente não encaixariam no filme, pois ler algo tende a ser menos chocante do que ver.

Outra coisa que funciona é Darth Vader, que apesar de aparecer pouco, é o único personagem que se sustenta independente dos filmes, já que suas aparições são sempre tensas e conseguem transmitir muito bem a imponência necessária para qualquer bom vilão.

A edição da editora DarkSide é de capa dura e belíssima, e mesmo que traga alguns erros de revisão e excesso de expressões como “na mosca”, ainda assim garante uma leitura agradável e é um prato cheio para qualquer colecionador.

De modo geral, “Uma Nova Esperança” é desnecessário, porém agradável, e apesar de não trazer nada de novo e ser repleto de erros, garante uma boa diversão principalmente para quem é fã, mesmo que reassistir ao filme seja mais interessante.


O.K
João Vitor, 16 de Dezembro de 2014



domingo, 14 de dezembro de 2014

Crítica: As Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg


As Aventuras de Tintim

Steven Spielberg faz o que sabe, e faz bem


Steven Spielberg é um cineasta admirável. É difícil não se impressionar com O Resgate do Soldado Ryan, se emocionar com E.T: O Extraterrestre, ou se divertir com Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida. Mas, infelizmente, filmes como AI: Inteligência Artificial e Cavalo de Guerra provam que o cineasta tem uma queda para o melodrama que estraga até mesmo bons projetos. Dessa forma, a cada nova obra há sempre a expectativa de um grande filme, mas também a ameaça de um fracasso.


Felizmente, esse não é o caso de As Aventuras de Tintim, já que se trata de um filme divertidíssimo, e que apesar de previsível consegue fazer com que o espectador se importe com os personagens e se envolva nas cenas de ação.

A história gira em torno de Tintim (Jamie Bell), um jovem repórter que após comprar um barco em miniatura se vê perseguido por Sakharine (Daniel Craig), e após ser preso por este e conhecer o capitão Haddock (Andy Serkis), o rapaz se envolve em uma caça ao tesouro e muitos segredos.













Utilizando as liberdades proporcionadas pela animação a seu favor, Spielberg aproveita para criar planos impossíveis de se filmar com uma câmera física, “voando” entre os cenários e atravessando objetos, e com isso aumentando a urgência de cenas movimentadas, deixando-as mais compreensíveis e interessantes (destaque para o plano-sequência que mostra uma perseguição em diversos veículos pela cidade, que é brilhantemente cuidadoso em todos os detalhes).

Outro acerto de Spielberg é a utilização de cortes memoráveis de um acontecimento para outro. Em especial quando transforma o mar de uma cena em uma poça d`água de outra, e quando faz um aperto de mão virar uma montanha.
















Não posso deixar também de elogiar o uso do 3D, uma tecnologia cada vez mais mal utilizada, mas que aqui é trabalhada com cuidado, sem apelar para objetos voando em direção ao espectador ou câmeras subjetivas dispensáveis, contribuindo para a diversão do filme principalmente nas cenas que possuem fragmentos voando pela tela e nas que se passam no mar.


Escrito por Steven Moffat (Doctor Who e Sherlock), Edgar Wright (do excelente Scott Pilgrim Contra o Mundo), e pelo novato Joe Cornish, o roteiro não consegue fugir da previsibilidade da história, mas ainda assim estabelece personagens carismáticos, um vilão ameaçador, e diálogos inspirados (por exemplo: “Minha memória não é mais a mesma” “E como ela era?” “Esqueci”).



A trilha sonora é de John Williams, parceiro de longa data do diretor, e que mais uma vez é muito competente. Caindo como uma luva à narrativa, seus temas marcantes contribuem para deixar tudo mais empolgante, em especial as cenas de ação.

 Ainda assim, o filme tem seus deslizes. Nada que comprometa a obra, mas a impedem de ser excelente. Além da já citada previsibilidade da trama, há algumas cenas que possuem demasiada aventura em situações dispensáveis, o que acaba sendo um pouco anticlimático (principalmente a sequência que envolve a captura de uma chave que não é importante e a que se passa fora de um avião em pleno voo, que parecem existir apenas para criar fases de um possível jogo para vídeo game).







Deixando ainda um gancho para uma possível sequência (que espero realmente que aconteça), As Aventuras de Tintim cumpre seu propósito com eficiência, divertindo e empolgando. Além disso, é mais um acerto de Steven Spielberg – o que é sempre algo a se comemorar.

Muito bom!
João Vitor, 14 de Dezembro de 2014.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Crítica: Onde Os Fracos Não Têm Vez, de Joel e Ethan Coen

              

             Onde Os Fracos Não Têm Vez

                         A obra-prima dos irmão Coen


Onde Os Fracos Não Têm Vez não é somente o melhor filme dos irmãos Coen, ou o melhor filme de 2007, ou um dos melhores da década. É, sem sombra de dúvidas, um dos melhores filme já feitos em toda história do cinema americano.


Baseado no livro de Cormac McCarthy, o longa conta a história de Llewelyn Moss (Josh Brolin), um veterano do Vietnã que encontra uma maleta de dinheiro no deserto e se vê perseguido por Anton Chigurh (Javier Bardem). Nesse contexto, há ainda o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) que se vê desolado no meio de tanta violência.

Com um roteiro recheado de diálogos geniais, como: “– Você vende traves? – Me diga o número de sua barraca e eu encomendo as traves necessárias. – Esquece. Quero uma barraca. – Qual barraca? – A que tiver mais traves.” ou “ – Se eu não voltar, diga à minha mãe que eu a amo. – Mas sua mãe está morta. – Então eu mesmo digo.”, o filme aborda temas como o corrompimento do homem pela ganância e a banalização da violência, e ainda brinda o espectador com cenas de brutalidades exageradas que são essenciais para a mensagem da obra (reparem no monólogo que abre e no que encerra a narrativa).




A fotografia é do sempre competente e parceiro de longa data dos irmãos Coen, Roger Deakins, que aqui faz um dos trabalhos mais fascinantes de sua carreira, ajudando a montar quadros dignos de serem emoldurados, em especial nas cenas passadas ao nascer do Sol, e criando um contraste espetacular entre o vermelho forte do sangue e as cores secas do deserto.

Outra coisa fascinante no filme é o personagem vivido brilhantemente por Javier Bardem, Anton Chigurh, que sempre surge representando uma ameaça e nunca deixando o espectador prever suas ações. Desde sua primeira aparição, percebemos sua importância (já que surge inteiro de roupas negras em um cenário com cores predominantemente claras e secas), e sua ameaça (já que levamos vários segundos para conseguirmos ver seu rosto). E essa ameaça logo em seguida é justificada, pois sua primeira ação no filme é enforcar um policial com uma algema, para logo em seguida matar um homem com um cilindro de ar comprimido, para depois decidir a vida de um atendente de posto no cara ou coroa. Dessa forma, quando vemos o personagem vivido por Woody Harrelson fazer comentários como: “Você o viu e continua vivo?” ou “Mesmo se você o desse o dinheiro, ele te mataria apenas pelo incômodo”, não temos dificuldades em compreendê-lo.









A direção dos irmãos Coen é o que dá a tudo o toque de obra-prima. Criando rimas visuais interessantes, como aquela envolvendo reflexos em uma televisão, e cenas de ação extremamente bem coreografadas, a dupla demonstra mais uma vez seu marcante senso de humor negro, que aqui, ao contrário da maioria de seus outros filmes, não aparece em primeiro plano, mas sim para pontuar determinados momentos da narrativa, como quando vemos um policial desligando o telefone após dizer “Está tudo sob controle”, para no segundo seguinte ser brutalmente morto.








Outra decisão genial da dupla é a ausência de uma trilha instrumental para ajudar a estabelecer a tensão durante o filme, já que tudo o que os dois precisam pra tal, são apenas os sons diegéticos (aqueles que são originados pelos personagens ou pelo cenário). E isso, além de dar maior realismo à história, principalmente às cenas de ação, deixa tudo ainda mais tenso (destaque para a cena que se passa em um quarto de hotel, onde nenhuma música seria mais tensa do que aquele silêncio; e a cena que mostra Llewelyn sendo perseguido por um pit bull, onde os sons das patas do animal nas pedras se mostram muito mais assustadoras do que qualquer música).



Os figurinos de Mary Zophres também merecem destaque, já que refletem tanto a condição física quanto a mental dos personagens. Llewelyn, por exemplo, começa com uma roupa arrumada, mas com o passar do filme, como o personagem vai se desgastando devido a tudo que lhe acontece, suas roupas também vão ficando cada vez mais rasgadas e sujas. Já Anton Chigurh, permanece com suas roupas intocadas, já que está acostumado à violência e não se vê atingido por tudo que o cerca.









Aliás, em relação às roupas de Chigurh, sua única peça que não é preta são suas botas. Assim, quando o vemos matar um personagem e em seguida erguer os pés para não sujá-los de sangue, podemos perceber outra ironia sutil do filme, já que suas botas já são vermelhas.







Não temendo em apostar em um desfecho ambíguo e genial, mas que com certeza vai desagradar muitos dos que estão acostumados aos finais redondinhos de Hollywood, Onde Os Fracos Não Têm Vez é uma verdadeira obra-prima, que merece ser vista e revista inúmeras vezes, e que traz atuações marcantes, um roteiro irretocável e uma direção primorosa. Sem dúvidas, um filme que irá ser lembrado por muitas e muitas décadas, e que definitivamente irá se tornar um clássico do cinema.

Excelente!

João Vitor, 14 de Setembro de 2014