sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Crítica: Perdido em Marte, de Ridley Scott

“Perdido em Marte” é um filme surpreendentemente otimista e divertido. Mesmo contando uma história que tem uma carga dramática inerente (envolvendo um personagem sozinho em um planeta deserto), este novo trabalho de Ridley Scott até tem sua dose de melancolia, mas nunca perde o bom humor e, mais do que isso, se mostra um manifesto “pró-humanidade”, nos mostrando que nossa espécie, mesmo com seus inúmeros problemas, vive seu melhor período histórico e tem uma tendência natural para a empatia e a união para resolver problemas.


A trama é bem simples: durante uma missão tripulada em Marte, o astronauta Mark Watney (Matt Damon) é dado como morto após se ferir em uma poderosa tempestade e é deixado para trás por seus companheiros. Mas por sorte ele sobrevive e tem que tentar se virar sozinho em um planeta com condições desfavoráveis e com recursos limitados. Ao mesmo tempo, na Terra, os cientistas da NASA tentam organizar um plano para trazê-lo de volta a tempo e em segurança.

Logo em seus 10 minutos iniciais o filme já é hábil em estabelecer, através de seus diálogos ágeis e seu competente elenco, um descontraído clima de camaradagem entre os membros da tripulação (o que se mostra de fundamental importância no decorrer da narrativa), e de maneira igualmente competente o clima logo fica tenso (reparem nas luzes piscando atrás dos personagens – recurso já utilizado pelo diretor em “Alien”) e sem perder tempo o protagonista já se encontra sozinho em Marte e a história pode se desenrolar.







Ridley Scott é conhecido por abordagens mais pessimistas (como em “Blade Runner” e “O Gângster”), além de sempre demonstrar facilidade para criar um clima épico (mesmo em trabalhos medianos como “Cruzada” e “Prometheus”), mas comédia não é o seu forte (vide o desastre que foi “Um Bom Ano”). Sendo assim, é surpreendente que neste “Perdido em Marte” o diretor demostre um timing cômico tão afinado (ainda que deva muito a seus atores – como abordarei daqui a pouco) e aposte em uma abordagem tão otimista – se em “Blade Runner” até mesmo os replicantes (robôs) se mostravam mais humanos do que os próprios humanos, e em “Alien” a vida dos tripulantes era colocada em segundo plano pela corporação (que se interessava muito mais pelo conhecimento científico proveniente da criatura monstruosa), aqui a vida de um único personagem vale todos os investimentos possíveis da NASA, e até mesmo países que são muitas vezes encarados como rivais, como os EUA e a China, podem se unir em prol de um objetivo comum (salvar uma vida). E até mesmo a tecnologia, que parece sempre ser a principal responsável pelo distanciamento entre as relações humanas, surge aqui como a grande heroína da história, possibilitando melhores comunicações e facilitando o trabalho de todos.


E por mais que o filme se mostre uma grande reverência à ciência, é interessante como ele não encara a religião como um problema ou como fruto da ignorância, chegando até a trazer o protagonista criando fogo a partir da madeira de um crucifixo (uma metáfora que não deixa de ter sua dose de ironia, mas acaba servindo para mostrar que tudo tem sua utilidade).









O roteiro escrito por Drew Goddard (adaptado do romance de Andy Weir) é hábil em deixar as explicações científicas acessíveis para todos os públicos (sem precisar apelar para diálogos muito expositivos), e também ao introduzir a burocracia enfrentada pelos personagens – desde a relação com a mídia até as dificuldades de financiamento das missões (mas, mais uma vez, sem nunca soar chato). E se a opção de trazer o protagonista fazendo pequenos vlogs para registrar suas ideias pode fazer o texto soar um pouco expositivo demais (como se ele estivesse falando diretamente com o público), pelo menos ele faz questão de justificar essa escolha dentro do contexto do filme – afinal, ao gravar seus vídeos o personagem pode ao menos tentar fingir uma “socialização”. Além disso, são nesses momentos que ficamos sabendo dos perigos que ele terá que enfrentar e das inúmeras coisas que podem dar errado.



Aliás, é interessante como o senso de humor do protagonista no início parece meio nervoso e desajustado (reparem na maneira quase imatura como ele se aproxima da câmera para falar algo em um de seus primeiros registros), e aos poucos vai surgindo de maneira mais orgânica, servindo como um escudo contra as situações adversas nas quais ele se encontra.







E igualmente interessante é ver como o roteiro acha espaço para pequenas ironias – como no momento em que vemos um personagem na Terra dizendo “no que será que ele está pensando?” (se referindo ao protagonista), e no segundo seguinte o vemos na base em Marte ouvindo Disco Music.

A fotografia de Dariusz Wolski também merece destaque por trabalhar bem o 3D (destaque para os planos aéreos de Marte e as cenas em gravidade zero) e por diferenciar muito bem os cenários onde se desenrolam a trama (Marte é sempre fotografado com paleta laranja bem forte, enquanto a nave com os outros tripulantes é cheia de branco e azul, e a Terra tem cores mais chapadas e frias).



 











Mas muito da força do filme se deve ao seu elenco – que, curiosamente, por ser homogeneamente tão competente acaba até encobrindo o problema de excesso de personagens.

Matt Damon demonstra um timing cômico perfeito, que é essencial para o funcionamento do filme, e faz seu personagem ser agradável (assim, torcemos pela sua sobrevivência) com seu senso de humor que é uma mistura bem dosada de ironia com prepotência.

Mas o elenco secundário também não fica muito atrás. Jessica Chastain (atriz que surgiu há pouquíssimo tempo, mas que já esteve presente em pelo menos uns 10 filmes interessantes) surge com uma das personagens mais conflituosas do longa (seu sentimento de culpa por ter deixado Mark para trás, ainda que de forma não intencional, é atormentador), mas também uma das mais maduras e racionais – e a cena que envolve uma votação entre a tripulação representa o auge de seu trabalho.







Michael Peña é outro que pôde incluir seu timing cômico em seu personagem, mas também tem a chance de trazer uma interessante carga dramática à trama – a cena que envolve uma conversa online entre ele e o protagonista no meio no filme é possivelmente o momento mais tocante da narrativa.







Já Jeff Daniels merece créditos por conseguir evitar que seu personagem seja desagradável, convencendo com sua experiência ainda que seja o mais pessimista e represente muitas vezes um obstáculo para o resgate de Mark Watney.







Também não posso deixar de elogiar o trabalho rápido, mas extremamente eficiente, de outros dois atores: Mackenzie Davis e Donald Glover (este último ainda tem a chance de protagonizar uma das cenas mais engraçadas do filme – aquela envolvendo um pregador de papel).







E o que dizer da escolha de trazer o personagem interpretado por Sean Bean no meio de uma referência a Senhor dos Anéis?


(Para quem não se lembra, Bean interpretou Boromir em “A Sociedade do Anel”).


A montagem também é ágil em acompanhar três núcleos narrativos diferentes (um em Marte, um na Terra, e outro na nave), e ainda consegue criar uma sequência memorável ao som de Starman, de David Bowie – com pequenas rimas visuais (como ao trazer um conserto de veículo tanto em Marte quanto na Terra) e também uma interessante ironia com a letra da música (que traz em seu refrão o verso: “There’s a starmen waiting in the sky” – “Tem um homem das estrelas esperando no céu”).




 Também é interessante como o filme celebra a diversidade e foge de um patriotismo americano cego: a ajuda da China é de fundamental importância para a história; o diretor das missões espaciais é negro; um dos tripulantes da expedição é de origem latina e outro alemão (ele chega até a usar a bandeira de seu país em seu uniforme); e a líder da nave é uma mulher – mais uma vez reforçando uma das mensagens da obra: vivemos no melhor período histórico possível.




Não que o filme seja perfeito, pois não é. Em nenhum momento ele deixa de ser previsível (o que não é necessariamente um problema muito grande), o clímax é um pouco longo demais, e também confesso que senti um pouco de falta do protagonista durante a hora final (ainda que, levando em consideração a longa duração da narrativa, isto acabe sendo um mal necessário).

Mantendo seu senso de humor até seus créditos final, que são ao som de “I Will Survive” (“Eu Vou Sobreviver” – olha a ironia), “Perdido em Marte” é o melhor filme de Ridley Scott em muito tempo, e é também um manifesto otimista sobre a humanidade e sua capacidade de se ajudar e resolver problemas – e diante de tantos filmes que se dedicam a mostrar como o ser humano é falho e corrompido, um sopro de esperança é sempre bem-vindo.

Muito Bom!

João Vitor, 21 de Fevereiro de 2016.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Crítica: Um Bom Ano, de Ridley Scott

Poucas vezes eu vi um filme tão ruim quanto este “Um Bom Ano”. Trata-se de uma obra desagradável sobre um personagem mais desagradável ainda, e que ainda acredita que tem algum potencial cômico, torturando o espetador por suas quase duas horas de duração.


O roteiro escrito por Peter Mayle e Marc Klein acompanha o bem sucedido Max (Russell Crowe), que após a morte de seu tio herda um vinhedo onde passou parte de sua infância. Após viajar para o local com a intenção de vendê-lo, ele começa a descobrir novos prazeres na vida calma do campo.


Tendo em vista que o diretor é o Ridley Scott (diretor conhecido por abordagens mais melancólicas), seria de se esperar que o filme fosse um drama sensível sobre a relação entre um tio e um sobrinho ou algo do tipo, mas o que o filme faz é o contrário: deixando o drama quase que completamente de lado, os roteiristas e o diretor investem em uma narrativa cômica, o que não seria um problema se eles ao menos tivessem a mínima noção sobre timing.



Chega a ser ridículo que o diretor responsável por uma obra-prima como “Blade Runner” seja capaz de incluir em um trabalho seu alívios cômicos tão ridículos, tais como um cachorro fazendo xixi na perna de alguém, ou uma fala como “Sua bunda era mais bonita antes” (dita pela empregada ao ver Max após um tempo), ou então simplesmente trazendo personagens com sotaques estrangeiros carregados (como se por algum motivo isso tornasse suas falas automaticamente cômicas).

Além disso, Ridley Scott se mostra aqui um péssimo diretor de atores (o elenco tem nomes como Russell Crowe, Albert Finney, Marion Cotillard e Abbie Cornish, e nenhum deles está bem). E como se não fosse o bastante, o diretor ainda demostra não saber nada sobre comédia, ao apostar em cenas que supostamente deveriam ser engraçadas simplesmente pelo fato de terem sido filmadas em câmera acelerada (como aquelas que envolvem o protagonista tendo dificuldades com seu carro alugado).


Igualmente decepcionante é ver um ator do nível de Russell Crowe fazendo um papel tão estúpido e sem graça. Surgindo completamente desagradável e incapaz de incluir o mínimo carisma em seu personagem, Crowe ainda demonstra uma total falta de timing cômico e incapacidade para o humor físico (e a cena que o traz em uma piscina cheia de terra e outra em que ele sai correndo assustado por um escorpião estão entre as piores do longa e também entre as mais estúpidas que eu já vi até hoje).

E se isso tudo ainda não fosse o suficiente, o filme ainda se mostra completamente machista, retratando as personagens femininas como verdadeiros objetos sexuais (chegando ao cúmulo de trazer a personagem de Marion Cotillard levantando sua saia no meio da rua para mostrar seus machucados na perna), e até mesmo a bela fotografia (que cria um interessante contraste entre as cores quentes do campo e a frieza mecânica da cidade) acaba sendo desperdiçada, já que não condiz com as tentativas de comédia do roteiro, servindo mais para uma narrativa dramática.

Sendo ainda completamente previsível e artificial em seu desfecho, “Um Bom Ano” é um desastre completo, sendo incapaz de gerar empatia com seu protagonista desagradável (e não é à toa que esta já é a quarta vez que uso essa palavra) e falhando em todas suas tentativas de fazer comédia – e o fato de ter na direção um nome tão forte como Ridley Scott só torna o desastre ainda mais lamentável.

Ruim.

João Vitor, 15 de Fevereiro de 2016.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Crítica: Sicario: Terra de Ninguém, de Denis Villeneuve

Para mim já não há mais dúvidas de que Denis Villeneuve é uma das melhores coisas (se não a melhor) a acontecer no cinema nos últimos anos. Desde que chamou a atenção em 2009 com o ótimo “Polytechnique” ele conseguiu um feito inacreditável: fazer três obras-primas seguidas – “Incêndios” (2009), “Os Suspeitos” (2013) e “O Homem Duplicado” (2014). E agora ele acaba de adicionar mais um trabalho perfeito para sua invejável lista: este novo e excelente “Sicario: Terra de Ninguém”.


Ambientado na sempre tensa fronteira entre Estados Unidos e México, o roteiro acompanha uma agente do FBI (Emily Blunt) que se voluntaria para uma operação da CIA para derrubar um chefe de cartel mexicano.

Extremamente violenta desde seus primeiros minutos (ao trazer dezenas de cadáveres ensacados e ensanguentados escondidos dentro das paredes de uma casa), a narrativa nunca deixa dúvidas quanto ao seu tom pessimista e tenso.

Fotografado pelo sempre brilhante Roger Deakins, o filme é de uma beleza plástica absurda. Em muitos momentos lembrando seu trabalho no excepcional “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007), Deakins consegue criar inúmeras pinturas – como os planos em contraluz durante o pôr-do-sol.


Já a trilha sonora é de Jóhann Jóhannsson, que prova sua versatilidade ao trazer músicas que em nada lembram seu último trabalho (no belo “A Teoria de Tudo”). Apostando diversas vezes em um ruído grave constante muito influenciado pelos últimos trabalhos de Hans Zimmer (em filmes como “A Origem” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”), o compositor consegue passar a tensão e a ameaça eminente experimentada pelos personagens.


Mas mesmo com músicas impecáveis, é interessante que o filme se arrisque e construa momentos incrivelmente tensos utilizando apenas sons diegéticos (aqueles feitos pelos próprios personagens), como na cena envolvendo um interrogatório – fazendo por merecer sua indicação ao Oscar de Melhor Edição de Efeitos Sonoros.

Aliás, mais uma vez é necessário aplaudir a eficiência de Denis Villeneuve para dominar o espectador e deixa-lo completamente tenso. Enquanto muitos diretores optariam por trazer as sequências de ação o quanto antes na trama, ele se mostra muito mais contido e se sai muito bem.

Ao acompanharmos os personagens quando estes estão indo fazer uma operação perigosa, por exemplo, seria fácil para o diretor ir diretamente para as trocas de tiros e explosões, mas o que ele faz é subverter as expectativas do espectador ao prolongar ao máximo o desconforto e a inquietação da protagonista, com longos planos aéreos (que aumentam a imponência e a ameaça da situação) e outros que a acompanham dentro do carro. Assim, quando os personagens se veem presos em um engarrafamento com uma ameaça eminente, o espectador já está completamente tenso e imerso na narrativa.


Vale dizer também que essa sequência passada em um engarrafamento é uma das melhores coisas do cinema nos últimos anos, e por si só já deveria valer para o filme uma indicação ao Oscar de Melhor Montagem (o que infelizmente não aconteceu).

As atuações também não deixam nada a desejar. Emily Blunt protagoniza o filme com cuidado e dedicação, convencendo ao trazer o arco dramático mais forte da narrativa. Já Josh Brolin tem a chance de trazer um leve timing cômico para seu personagem, que parece já ter ficado imune a tanta violência depois de anos de experiência.

Mas quem realmente rouba a cena é Benicio Del Toro. Surgindo desde o início com o olhar cansado, que passa sua experiência e seu pessimismo, ele se mostra o personagem mais interessante e complexo do filme (mesmo sendo coadjuvante), tendo ainda a chance de protagonizar aquela que é provavelmente a melhor cena do longa (que envolve um chefe de cartel em um jantar – você reconhecerá quando ver).


Surpreendendo ao trazer uma impressionante complexidade dramática em seu terceiro ato e um desfecho poderoso (que inclusive lembra muito o final do clássico “Chinatown”, de 1974), “Sicario” é uma experiência envolvente e inesquecível, que ainda consegue levar o espectador emocionado para os créditos finais, e fazê-lo ansiar desesperadamente pelo próximo trabalho de Denis Villeneuve.

Excelente!

 João Vitor, 8 de Fevereiro de 2016.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Crítica: O Regresso, de Alejandro González Iñárritu

O Regresso é um espetáculo. Ao longo de suas quase três horas o filme traz inúmeros momentos de tirar o fôlego, impressionando pela perfeição técnica e provando mais uma vez que Iñárritu é um dos melhores diretores de sua geração.


Ambientado no século XIX o roteiro conta a história real (ainda que com diversas liberdades criativas, como abordarei daqui a pouco) do explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que após ser brutalmente ferido por um urso em uma de suas expedições, é deixado para morrer pelos seus companheiros. Mas mesmo em condições completamente adversas (com feridas abertas, perna quebrada e a centenas de quilômetros da ajuda mais próxima), Glass consegue sobreviver e vai em busca de vingança.

Um dos maiores atrativos da direção de Alejandro G. Iñarritu é seu fascínio por longos planos sem cortes. Se em Birdman (meu texto sobre pode ser lido aqui) essa manobra servia como comentário sobre o fato de o filme ser sobre uma peça de teatro (que ao contrário do Cinema, não traz cortes no meio das cenas), aqui seus longos planos servem para acentuar o desconforto do espectador em determinadas cenas e aumentar seu envolvimento na narrativa. Aliás, é impressionante o controle que o diretor demonstra sobre a mise-en-scene (geografia das cenas), pois mesmos nos momentos de ação (como o ataque de índios que acontece logo nos primeiros minutos) seus planos sem cortes aumentam a tensão e a inquietação, mas nunca deixam o espectador perdido sobre o que está acontecendo. Já em outro momento chave, que traz o protagonista sendo brutalmente atacado por um urso, a opção de filmar sem cortes (pelo menos aparentes) demostra não apenas um feito técnico impressionante, como ainda atinge um nível de desconforto e envolvimento inacreditáveis.


E se Iñarritu merece aplausos pelo seu preciosismo, o mesmo merece seu diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Mesmo depois de ser responsável por fotografias nada menos do que brilhantes em filmes como “Filhos da Esperança”, “A Árvore da Vida”, “Gravidade”, e “Birdman”, o fotógrafo mexicano mostra que ainda é capaz de surpreender. Aqui, mesmo utilizando apenas luz natural, ele mais uma vez consegue criar verdadeiras pinturas, como os planos que trazem raios de sol por entre as árvores e aqueles que sobrevoam as impressionantes locações montanhosas cobertas de neve.

Igualmente interessante é a maneira como Iñarritu e Lubezki criam pequenas rimas visuais que enriquecem o filme para um olhar mais atento – como o momento que traz o personagem de Leonardo DiCaprio embaçando a lente com sua respiração ofegante e logo depois vemos o antagonista interpretado por Tom Hardy enchendo o quadro com a fumaça de seu cachimbo.







É claro que aqui e ali o filme parece se impressionar consigo mesmo e acaba criando alguns momentos descartáveis que chamam demais a atenção para si, e que só estão ali por motivos estéticos – como quando o protagonista está conversando com um índio e este vai falar uma coisa (sem importância alguma) e a câmera se move lentamente até se posicionar em um ângulo contra-plongée, que enfoca o ator tendo como pano de fundo apenas o céu cheio de nuvens (um momento lindo plasticamente, mas sem propósito algum).


Já a trilha sonora merece créditos por apostar em constantes melodias dissonantes, que acentuam o desconforto do espectador, atingindo seu ápice no clímax da narrativa, onde a música não apenas funciona para incomodar, como ainda consegue fazer uma leve e discreta referência ao filme anterior do diretor (Birdman), ao trazer ao fundo alguns grooves rápidos de bateria.

As atuações também merecem destaque. Leonardo DiCaprio (que deve vencer seu primeiro Oscar por este trabalho) protagoniza o filme com uma entrega total, conseguindo ainda dar humanidade ao seu personagem ao demonstrar seu carinho com o filho. Já Tom Hardy (ator que está em plena ascensão) faz mais uma vez um trabalho admirável. Mesmo tento que atuar com um sotaque completamente diferente do seu (ele é britânico e seu personagem é um sulista americano), o ator consegue ser completamente odiável e vilanesco sem ser caricatural, convencendo como uma ameaça palpável.








Outro que surpreende e que está em plena ascensão é Domhnall Gleeson (que só nos últimos dois anos esteve presente em nada menos do que sete filme, incluindo os ótimos “Frank”, “Brooklyn”, “Star Wars: O Despertar da Força” e “Ex Machina”). Aqui ele deixa completamente de lado sua vulnerabilidade adolescente (apresentadas em filmes como “Frank” e “Questão de Tempo”) e convence como um capitão maduro e com grande senso de dever e justiça.

Já o roteiro é o que o filme tem de pior. Levando em consideração a proposta da narrativa, que depende muito mais da estética, isso acaba importando bem menos do que normalmente importaria (filmes como Spotlight e Carol poderiam beirar o desastre se seus roteiros não fossem bons), mas ainda assim, algumas coisas incomodam e poderiam ter sido evitadas.


Ainda que o filme acerte em não apelar para o velho e preconceituoso clichê do índio malvado e selvagem, ele falha ao tentar adicionar uma reflexão profunda sobre o genocídio praticado pelos colonizadores e se perde em sua auto-importância: em determinado momento, quando um francês questiona se um índio roubou os produtos que está tentando vender, este responde dizendo que o verdadeiro ladrão é o homem branco por tomar tudo que seu povo tinha – o que é verdade, e poderia ficar interessante no filme se não tivesse sido jogado de maneira tão aleatória e artificial. Em outro momento, vemos um índio morto enforcado em uma árvore com uma placa escrita “somos todos selvagens” – pecando mais uma vez pela obviedade e pela inverossimilhança (quem iria ter o trabalho de quebrar um pedaço de madeira e escrever uma mensagem para pendurar em um cadáver no meio da floresta onde muito provavelmente ninguém irá ver???)



E se o texto acerta ao tomar algumas liberdades criativas em relação à história real (a opção de colocar o filho do protagonista como mais uma vítima do antagonista não apenas aumenta a vilania deste, como também deixa o sentimento de revolta e vingança ainda mais palpável), volta a errar no terceiro ato ao incluir um detalhe envolvendo um cantil (não darei mais detalhes para evitar spoilers) que além de inverossímil, é descartável (afinal, havia outras maneiras do roteiro passar aquela informação).

Além disso, vale dizer que a cena envolvendo um cavalo e um penhasco é completamente absurda e exagerada, além de descartável.

Em relação à duração, posso dizer que em nenhum momento o filme me pareceu cansativo ou arrastado (muito pelo contrário). Mas isso não significa que ele não seja mais longo do que o necessário, pois na verdade é. Todas as cenas que trazem devaneios do protagonista sobre sua esposa morta e seu filho representam uma gordura a mais que poderia ter sido cortada na sala de montagem. Não chegam a ser completamente descartáveis, pois acabam adicionando humanidade ao personagem e são de uma beleza plástica impressionante, mas acabam tomando muito mais tempo do que o necessário.

Mas apesar desses probleminhas, o fato é que “O Regresso” ainda é um filmaço, oferecendo uma experiência única e completamente imersiva, além se ser inesquecível e provar que a parceira entre Iñarritu e Lubezki é uma das mais interessantes do cinema atual.

Ótimo!

João Vitor, 7 de Fevereiro de 2016.

Crítica: Trumbo, de Jay Roach

Filmes sobre filmes são sempre interessantes, principalmente aqueles que acompanham o processo criativo dos realizadores (“Barton Fink”, “Adaptação” e “Desconstruindo Harry” são alguns exemplos). Além disso, o “medo comunista” alimentado pelos EUA durante a Guerra Fria sempre possibilita temas ricos para o Cinema (afinal, diversas pessoas tiveram suas vidas destruídas só pelo fato de terem sido membras do Partido Comunista). Sendo assim, um filme sobre um roteirista perseguido por suas convicções políticas tinha de tudo para ser no mínimo interessante, e “Trumbo” de fato o é, ainda que seu roteiro tente a todo custo estragar até mesmo seus potenciais mais altos.

               

O filme se passa durantes os anos 40 e 50 nos Estados Unidos, e acompanha o roteirista Dalton Trumbo (Bryan Cranston), autor de clássicos como “A Princesa e o Plebeu” e “Spartacus”, e membro do Partido Comunista, que ficou impedido de vender seus roteiros por anos tendo que apelar para codinomes e trabalhar como “escritor fantasma”.

A primeira coisa que chama a atenção no filme é seu elenco. Não deixa de ser curioso ver o comediante Louis C. K. (pelo qual tenho grande admiração) em um filme dramático, mas sou obrigado a apontar que sua escalação foi equivocada, pois ele acaba trazendo seu senso de humor inerente a um personagem que deveria ser interpretado com uma carga dramática mais forte.

Mas se Louis C. K não se livra de sua persona cômica, Bryan Cranston surge completamente diferente de seu papel mais famoso (Walter White, de Breaking Bad), fazendo por merecer sua indicação ao Oscar. Cranston não só imprime um carisma que faz o espectador se importar com seu personagem (o que é fundamental para o funcionamento do filme), como ainda convence com sua dedicação – e em certos pontos até obsessão – pelo seu trabalho, e sua performance atinge o ápice quando o personagem surge anos envelhecido para fazer um discurso de agradecimento na premiação do Sindicado de Roteiristas.

Helen Mirren por sua vez tem um grande obstáculo em seu caminho – o roteiro (que abordarei com mais detalhes daqui a pouco) –, mas ela acaba fazendo um trabalho admirável (e sua não indicação ao Oscar não deixa de ser uma surpresa), se divertindo com a vilania de sua personagem ao invés de levá-la a sério, convencendo de uma maneira surpreendente. Já John Goodman tem em suas mãos um personagem feito na medida para si, e não é novidade dizer que ele tira de letra, trazendo seu senso de humor característico e protagonizando os melhores momentos de alívio cômico do filme.


Também destaco o trabalho de Michael Stuhlbarg, que tem uma missão complicada – interpretar um ator famoso (neste caso, Edward G. Robinson, astro de clássicos noir como “Alma no Lodo” e “Pacto de Sangue”). Seu personagem surge como um dos mais complexos, e com certeza o mais conflituoso do filme, e um dos pouco méritos do roteiro está justamente em não exagerar em sua vitimização, admitindo seus erros, mas fazendo com que seus arrependimentos surjam de maneira orgânica.


E já que abordei a dificuldade de interpretar um ator famoso, não poderia deixar de citar o trabalho de David James Elliott e Dean O’Gorman. Elliott tem a tarefa de interpretar ninguém menos do que John Wayne (que é retratado de maneira bem vilanesca pelo roteiro – o que com certeza vai incomodar algumas pessoas) e se sai muito bem, convencendo sem nunca parecer que está simplesmente imitando o ator. O mesmo não pode ser dito de Dean O’Gorman, que transforma Kirk Douglas em uma caricatura pura, como se ele interpretasse um personagem até mesmo fora de cena, sendo digno de riso e até tirando um pouco o espectador da imersão do filme.


Em relação ao roteiro, além de deixar a desejar em relação aos personagens, ainda insiste em terminar diversas cenas com frases de efeito, que são artificiais e caricaturais (e o momento que traz a personagem de Helen Mirren desafiando um chefe de estúdio é particularmente ridícula e embaraçosa). Além disso, a falta de sutileza do roteirista John McNamara é gritante – por exemplo, quando o personagem de Louis C. K. revela que tem câncer (não é spoiler, isso acontece nos primeiros 15 minutos), eu juro que esperava ele cair na risada e dizer que era brincadeira, tamanha artificialidade e falta de timing. Ainda assim, é necessário apontar que ele consegue expor com competência o absurdo e a irracionalidade do medo comunista, e seus efeitos em pessoas inocentes – tema que também foi abordado no recente (e ótimo) Ponte dosEspiões. O afastamento do protagonista de sua família e sua obsessão crescente também são bem retratados, e por mais que o filme tenha duas horas, em nenhum momento ele soa cansativo ou arrastado – algo difícil de conseguir.

A trilha sonora de Theodore Shapiro peca por exagerar no melodrama, principalmente na cena que traz Trumbo olhando sua família de longe com tristeza e no momento em que o personagem conversa com um colega sobre o peso de um interrogatório. Já os figurinos erram por chamar demais a atenção para si, exagerando nas cores e pecando pela falta de sutileza, ainda que traga alguns momentos inspirados – como quando traz Trumbo com uma roupa completamente diferente de seus colegas roteiristas em uma reunião de estúdio.

Se salvando do esquecimento completo graças à força da história real e o trabalho dedicado de seus atores, “Trumbo” não é nada mais do que mediano, mas também oferece uma experiência agradável e uma história que merecia ser contada há muito tempo, afinal, poucas pessoas dão o valor necessário para o trabalho dos roteiristas.

O. K.
João Vitor, 17 de Janeiro de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson

Em 2014, o diretor Lenny Abrahamson chamou a atenção do mundo com seu filme “Frank”, que se tratava de uma obra única e profundamente original, que partia de uma premissa absurda (que envolvia um músico que nunca tirava sua gigante cabeça de papel marche) para criar uma narrativa que se sustentava pela excentricidade, mas surpreendia pela sensibilidade.


Agora, pouco mais de um ano depois, o diretor volta a trabalhar em cima de uma trama esquisita (que a princípio parece uma mistura de “Oldboy” com “Dente Canino”) para criar uma narrativa delicada que tem como principal sustentação o amor entre uma mãe e um filho.

Quanto menos você souber sobre a sinopse melhor. Basta saber que o filme se inicia com uma jovem (Brie Larson) que tem um filho pequeno, Jack, (Jacob Tremblay) e eles vivem trancados em um minúsculo quarto há anos.

A direção de Lenny Abrahamson é hábil desde o início em usar constantemente a câmera na mão (o que a deixa em constante movimento) e apostar em quadros fechados, que reforçam o sentimento de claustrofobia vivido pelos personagens. Aliás, vale a pena dizer que essa abordagem mais incômoda perdura toda a narrativa, mesmo nas cenas passadas fora do quarto, já que o sentimento de deslocamento dos personagens é constante.

O designe de produção também é eficiente em criar um ambiente que mesmo colorido, é desbotado, e onde tudo parece velho e sujo, contrastando com a energia infantil do menino Jack. Já a fotografia também é competente por trazer pouquíssima luz natural dentro do quarto, deixando tudo ainda mais triste e escuro.

Apesar das qualidades, é necessário apontar que a estrutura do roteiro acaba criando alguns problemas de ritmo. Boa parte do primeiro ato é quase toda arrastada, não mostrando ao que veio. Já na transição para o segundo, onde algumas coisas começam a ficar mais claras, tudo já é bem superior, trazendo ainda uma cena extremamente memorável e também difícil de ver pelo incômodo crescente que causa – me refiro àquela que se passa em uma camionete (você reconhecerá quando ver), onde o diretor atinge o auge de seu trabalho, utilizando de maneira muito competente e precisa a câmera subjetiva (quando o espectador assume o ponto de vista do personagem), criando uma das sequências mais fortes do ano.


Outra coisa que marca o filme são suas atuações centrais. Brie Larson já surge como a grande favorita ao Oscar de Melhor Atriz, interpretando sua personagem com uma entrega absoluta e uma intensidade que dificilmente será ignorada pela Academia. Mas é Jacob Tremblay quem realmente rouba a cena. Com apenas 9 anos (na verdade 8 quando o filme foi filmado) o pequeno ator demonstra uma entrega absoluta ao seu personagem, não se limitando a simplesmente gritar, chorar e dizer suas falas com naturalidade, mas trazendo ainda uma doce inocência e uma forte convicção.

Se arrastando demais em sua meia hora final (o que faz com que o espectador saia do cinema com a impressão de ter visto um filme pior do que de fato viu), “O Quarto de Jack” é uma experiência atípica e incômoda, mas também intimista e melancólica, e que se diferencia pelo seu diretor e pela entrega completa de seus talentosos atores.

Muito Bom!

João Vitor, 10 de Janeiro de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/