quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Crítica: Bingo - O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende

Há uma teoria informal entres os cinéfilos que diz que os montadores tendem a se tornar melhores cineastas do que os diretores de fotografia, pois enquanto um diretor de fotografia é mais facilmente seduzido pela beleza puramente plástica de um filme, um montador tem uma visão mais objetiva que busca criar sentido narrativo através dessa estética.

E vendo Bingo – O Rei das Manhãs, primeiro longa-metragem do consagrado montador Daniel Rezende, é fácil entender essa ideia, já que mesmo sendo um filme de estreia, é também um trabalho seguro, com um controle de ritmo impressionante, e que funciona tanto como estudo de personagem quanto como entretenimento pop.


A trama, baseada na vida do intérprete do palhaço Bozo dos anos 80, conta a história de um aspirante a ator que encontra fama ao protagonizar um programa matinal infantil, mas devido a uma cláusula de contrato, não tem o reconhecimento que deseja. Ao mesmo tempo, lida com vício em drogas e o distanciamento emocional de seu filho pequeno.

O roteiro tem suas ideias esquemáticas básicas de filme-biografia: um protagonista com uma motivação pessoal, a busca por reconhecimento, a passagem do sucesso para o declínio, etc. Mas o que importa é que essas ideias são muito bem executadas: ao invés de simplesmente incluir a figura de um filho para o protagonista como se isso fosse o suficiente para torna-lo humano, o roteiro cria uma interação palpável entre eles, e a rima visual que envolve um beijo no nariz, mesmo esquemática, funciona. E por mais que a cena que traga o filho ligando ao vivo para o pai para cobrá-lo emocionalmente peque um pouco pela inverossimilhança, ao menos funciona como representação simbólica (principalmente quando consideramos que é um diálogo entre pai e filho separados literalmente por uma tela de televisão).

Além disso, o texto também consegue fazer com que o talento cômico de seu protagonista seja algo crível (a cena que o traz fazendo uma audição para o papel do palhaço é particularmente inspirada), e utiliza com economia e precisão cenas de “imaginação” ou “sonho” não simplesmente pela brincadeira narrativa, mas para ajudar a evocar a atmosfera do filme e desenvolver a construção psicológica do personagem principal.


Há um ou outro detalhe um pouco mais mal resolvido, como a sequência que acompanha o protagonista em um “estágio” para aprender a ser palhaço, que mesmo não sendo gratuita desvia o foco dos elementos principais do filme (e o fato dessa sequência trazer um ator de impressão tão forte como Domingos Montagner ironicamente a torna ainda mais problemática por parecer mais importante do que realmente é), mas nada que incomode por muito tempo ou torne o filme muito irregular.

Impressionando principalmente pela energia que imprime ao filme, o diretor Daniel Rezende consegue evocar uma atmosfera envolvente seja por elementos puramente cinematográficos (há vários planos-sequência memoráveis durante a projeção) ou então por um uso criativo de elementos pop já conhecidos pelo público (a cena ao som de “Conga, Conga, Conga” é um de seus melhores momentos).

E enquanto a fotografia traz um clima de nostalgia com suas luzes brancas estouradas, a direção de arte se diverte com as cores exuberantes na reconstrução de época dos anos 80, que refletem o estado de espírito de um país que se sentia na necessidade de ostentar sua liberdade recém adquirida após uma rigorosa ditadura.

Se equilibrando muitíssimo bem entre o trágico e o cômico, e sendo ao mesmo tempo um estudo de personagem interessante e um entretenimento de alta qualidade, Bingo – O Rei das Manhãs é uma ótima surpresa, um dos melhores filmes do ano, mais uma prova de capacidade do cinema brasileiro e também a promessa de um novo ótimo diretor.

Muito Bom!

João Vitor, 7 de Setembro de 2017.

sábado, 15 de julho de 2017

Crítica: Homem Aranha: De Volta ao Lar, de Jon Watts

Como esta crítica já está atrasada, vamos direto ao ponto: “Homem Aranha: De Volta ao Lar” é um filme difícil de não gostar; apesar de alguns deslizes, consegue ser divertido, cumprir seu papel, e por alguns breves momentos se destacar de seus “colegas” de gênero de super-herói.



Há basicamente duas principais fraquezas no filme. Primeiro: ao precisar se encaixar no universo estendido da Marvel, é inevitável que o roteiro perca um pouco o foco na trama principal, além de utilizar de forma um tanto quanto preguiçosa o personagem de Tony Stark como “deus ex machina” para resolver situações muito difíceis. E segundo: o fato de contar com um diretor tão inexperiente como Jon Watts. Não que Watts seja um mal profissional, mas sua inexperiência com grandes produções (provavelmente uma estratégia do estúdio para obter maior controle criativo sobre o filme) fica evidente nas sequências de ação, onde os cortes rápidos e movimentos de câmera abruptos são apenas confusos, e na montagem que tenta ser ágil ao exagerar nos cortes até mesmo nas cenas mais calmas, criando um ritmo irregular que até mesmo desperdiça o potencial cômico de alguns bons momentos.

A trilha sonora instrumental também é irregular, já que é excessiva e intrusiva, mas nesse quesito o diretor se redime ao pelo menos demonstrar um bom timing para utilizar canções já famosas em momentos-chave.

Já o roteiro merece créditos por conseguir ganhar fôlego com um twist bem encaixado justo quando a trama parecia estar ficando cansativa. Além disso, o texto encontra ótimas piadas principalmente ao apostar em um senso de humor baseado no constrangimento do protagonista.

As referências aos filmes anteriores do herói também enriquecem a experiência e demonstram respeito sem diminuir sua própria importância: gosto particularmente da referência relativamente sutil envolvendo o “jovem clássico” beijo de ponta cabeça do primeiro filme de Sam Raimi de 2002, e também a rima visual com a imagem de Peter Parker parando um trem em “Homem Aranha 2” (2004), que aqui se reflete na imagem do herói tentando segurar um navio partido.


Sobre o vilão, é sempre bom ver um ator interessante e inspirado como Michael Keaton em ação; ainda assim, seu personagem não deixa de ser um pouco “funcional” demais, já que toda sua concepção parece claramente desenhada do começo ao fim para funcionar como trampolim para o herói em um primeiro filme de franquia, existindo apenas para tocar a trama para frente – o que não é um problema, claro, mas tampouco o destaca.

Exibindo uma interessante capacidade de rir de si mesmo em sua segunda cena pós-créditos, e apostando em um corte final divertido, que além de condizente com o restante do filme também foge do lugar comum de filmes de super-herói, “Homem Aranha: De Volta ao Lar” é um filme irreverente, competente e bastante divertido. Não deixa de ficar preso às convenções do gênero e de seu próprio universo cinematográfico, mas traz suficientes elementos interessantes para se sustentar sozinho e gerar curiosidade para eventuais (e inevitáveis) continuações.

Muito Bom!


João Vitor, 15 de Julho de 2017.

quarta-feira, 1 de março de 2017

As surpresas do Oscar 2017

Hoje chegou ao fim a temporada de premiações com o a 89ª edição do Oscar e... UAU! Depois de uma cerimônia morna, com uma ou outra surpresa, mas no geral bastante previsível, tivemos justamente no prêmio final um momento inesquecível, que está entre as maiores surpresas da história da premiação e se tornou ainda mais marcante pela gafe sem precedentes que a acompanhou.
Mas comecemos do começo:

A noite se iniciou com um dos prêmios mais previsíveis (e merecidos) de todos: a vitória de Mahershala Ali como Ator Coadjuvante, em Moonlight. Logo na sequência, duas surpresas: enquanto Figurino estava divididíssimo entre Jackie e La La Land (eu particularmente apostava no primeiro) Animais Fantásticos e Onde Habitam se beneficiou da divisão de votos e garantiu a quarta estatueta para a veterana Colleen Atwood; logo na sequência Esquadrão Suicida desbancou o favorito Star Trek e levou Melhor Maquiagem (aliás, não deixa de ser irônico que em um ano com tantos filmes de super-herói, o único que leve o título de “vencedor do Oscar” seja justamente o mais criticado de todos). 

E se por um momento a premiação voltou para os caminhos previsíveis com a vitória de OJ: Made in America em Documentário (o prêmio mais merecido de todos), logo voltou a surpreender com as categorias de Som: enquanto A Chegada levou Edição de Efeitos Sonoros como “consolação” (que bom!!), “Até o Último Homem” bateu o favoritíssimo disparado La La Land em Mixagem – musicais sempre levam vantagem aqui e La La Land tinha tudo para levar o máximo de prêmios possíveis (aqui foi quando o filme começou a sugerir um perda de forças, mas nada que parecia ameaçar o prêmio principal). 

Na sequência, o prêmio mais previsível de todos: Viola Davis como Atriz Coadjuvante, e depois O Apartamento confirmou o prêmio político em Filme Estrangeiro – o que resultou em um dos melhores e mais significativos discursos da noite. Nas categorias de animação também ocorreu tudo como o previsto: Piper, da Pixar, venceu como Curta, e Zootopia, da Disney, como Longa. Direção de Arte para La La Land também estava entre os mais óbvios, assim como o de Efeitos Visuais para Mogli. Mas logo em seguida tivemos um grande baque para La La Land: sua derrota em Montagem (musicais que vencem Melhor Filme quase sempre levam esta categoria também) para Até o Último Homem (deveria ter ido para A Chegada, mas tudo bem). Curta metragem foi para Sing (que era o favorito ao lado de Ennemis Intérieurs) e Curta-Documentário para Os Capacetes Brancos, que era o franco-favorito. 

A partir daí, TUDO acorreu como esperávamos, e La La Land voltou a confirmar sua força e favoritismo, levando Fotografia, Trilha Sonora, e Canção Original. Como esperado, Manchester à Beira Mar levou Roteiro Original enquanto Moonlight levou Adaptado. Direção para Damien Chazelle, de La La Land, Ator para Casey Affleck (que superou sua inesperada derrota no SAG e confirmou o favoritismo) e Atriz para Emma Stone. Não restavam dúvidas de que o prêmio principal iria para La La Land, era um filme nos moldes da Academia, tinha vencido todos os principais termômetros, e vencido prêmios importantes no próprio Oscar (apesar das já comentadas inesperadas surpresas), e de fato venceu... por alguns minutos.

Em um erro de organização primário e sem precedentes (já houve gafes na cerimônia, mas nunca nesse nível), Warren Beatty e Faye Dunaway (duas lendas) receberam o envelope errado (é possível ver escrito “melhor atriz” no envelope enquanto Beatty o segura) que dizia “Emma Sotne – La La Land”, e após alguns momentos de hesitação desconfortável de Beatty, Faye Dunaway leu apenas o nome do filme, que, afinal, já era óbvio que iria vencer. Porém, em um raríssimo momento de surpresa absoluta na cerimônia, o vencedor era não era La La Land e sim o pequeno (em orçamento, não qualidade) Moonlight. Isso resultou num constrangimento enorme para a equipe de La La Land: subir ao palco, fazer discurso, mas ter que passar o prêmio para os outros. Aliás, foi belíssima a atitude de um dos produtores de La La Land ao perceber o erro e dizer que seria uma honra entregar seu prêmio para os colegas de Moonlight.

Tivemos então ao mesmo tempo uma gafe absurda e uma das maiores surpresas da história da cerimônia: um momento que será lembrado como um dos mais marcantes do Oscar. Uma pena que, querendo ou não, isso acaba por ofuscar a vitória importante de Moonlight: agora todos apenas comentam a gafe e poucos citam, por exemplo, que foi o filme com menor orçamento da história a vencer Melhor Filme, e é também o primeiro com temática “LGBT”.

Mas o que pode ter levado a essa surpresa? Simplesmente uma vontade de fugir do óbvio? As mudanças nas regras do ano passado, que resultou em vários membros novos, já afetou diretamente a votação principal? Seria uma vontade de espantar de vez a polêmica racial das edições anteriores? Ou então “justiça histórica” para Brokeback Mountain, que assim como La La Land venceu todos os principais prêmios da temporada, mas perdeu o Oscar por pura homofobia? (para quem não sabe, naquele ano muitos membros declararam publicamente que sequer iriam assistir a Brokeback Mountain por se tratar de um romance gay).

Enfim, essas são respostas que nunca teremos por definitivo, mas essas discussões são o que fazem do Oscar uma cerimônia tão divertida ainda em sua 89ª edição.

P.S: algumas curiosidades:

* Este foi o segundo ano consecutivo em que os prêmios de Filme, Direção e Montagem foram para três filmes diferentes. Antes do ano passado, a última vez que isso tinha ocorrido havia sido em 1982.
* O “Sound Mixer” Kevin O'Connell venceu por Até o Último Homem sua primeira estatueta depois de 20 indicações e nenhuma vitória!

João Vitor, 27 de Fevereiro de 2017.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Palpites Oscar 2017

Assim como nos últimos dois anos, seguem minhas apostar para o próximo Oscar:

Melhor Filme

Vai vencer: La La Land

Depois de dois anos onde a categoria principal foi uma das mais divididas (Boyhood vs Birdman em 2015 e Spotlight vs O Regresso vs A Grande Aposta em 2016), voltamos à previsibilidade habitual da Academia. La La Land é o tipo de filme que não desagrada ninguém e (o que é mais importante) venceu praticamente todos os prêmios que servem de termômetro para o Oscar (incluindo o PGA, que praticamente sempre coincide). Não restam dúvidas de que irá vencer.

Qual seria meu voto: em ordem de preferência: A Chegada > A Qualquer Custo > Manchester à Beira Mar > Moonlight > La La Land > Um Limite Entre Nós > Até o Último Homem > Lion > Estrelas Além do Tempo.


Melhor Diretor

Vai vencer: Damien Chazelle (La La Land)

Outra categoria praticamente ganha. Além de a Academia ter adorado La La Land (que foi recordista de indicações ao lado de Titanic e A Malvada), Chazelle levou o DGA (Sindicato dos Diretores), que é o principal termômetro para a categoria.

Qual seria meu voto: Denis Villeneuve (A Chegada)


Melhor Ator

Vai vencer: Casey Affleck (Manchester à Beira Mar)

Casey Affleck vinha vencendo todos os principais prêmios da temporada, é um excelente ator em um excelente filme, porém enfrenta uma campanha negativa envolvendo seu envolvimento em um processo por assédio sexual, e perdeu aquele que é o principal termômetro para a categoria, o SAG, que foi para Denzel Washington. Mas enquanto o SAG é o principal termômetro e tem coincidido com o Oscar de Melhor Ator nos últimos 13 anos (!!), Denzel Washington não venceu nenhum dos outros prêmios da temporada... então é uma categoria bastante dividida, mas minha aposta vai em Affleck.

Qual seria meu voto: Casey Affleck


Melhor Atriz

Vai vencer: Emma Stone (La La Land)

Emma Stone é carismática, já foi indicada antes, a Academia adorou o filme, e ela venceu o SAG (Sindicato de Atores). Tem tudo para levar. A única que poderia surpreender é Isabelle Huppert, uma veterana dona de uma carreira invejável e que vem fazendo muita campanha, porém nem concorreu ao SAG e está em um filme bastante controverso e em língua estrangeira (apenas duas atrizes venceram por performances em língua não inglesa), é bastante difícil...

Qual seria meu voto: Isabelle Huppert (Elle)


Melhor Ator Coadjuvante

Vai vencer: Mahershala Ali (Moonlight)

Venceu o SAG, a Academia precisa premiar Moonlight de alguma forma, e sua vitória tem ainda uma importância política.

Qual seria meu voto: Michael Shannon (Animais Noturnos), mas fico satisfeito com Mahershala Ali também.


Melhor Atriz Coadjuvante:

Vai vencer: Viola Davis (Um Limite Entre Nós)

Aqui não tem o que discutir, este prêmio já está ganho antes mesmo de serem anunciadas as indicadas. Viola Davis já bateu na trave duas vezes, é uma excelente atriz, em uma excelente atuação, e tem tempo de tela suficiente para estar concorrendo na categoria principal.

Qual seria meu voto: Viola Davis está excelente, sem dúvidas, mas deveria concorrer como atriz principal, não coadjuvante, então votaria em Michelle Williams (Manchester à Beira Mar).


Melhor Roteiro Original

Vai vencer: Manchester à Beira Mar

Esta é uma categoria bastante equilibrada: La La Land pode fazer a lavada e ganhar aqui também (não merece, pois seu roteiro está entre suas coisas mais fracas – embora ainda seja ótimo), e a divisão de votos pode beneficiar A Qualquer Custo ou até mesmo O Lagosta, o único sem chances é Mulheres do Século XX. Mas aposto em Manchester por ser um filme excelente que pode não vencer outras categorias.

Qual seria meu voto: O Lagosta, mas fico muito satisfeito com Manchester à Beira Mar


Melhor Roteiro Adaptado

Vai vencer: Moonlight

Se Moonlight concorresse como roteiro original (como fez em outras premiações), esta categoria estaria ganha para A Chegada, mas como entrou como adaptado (por causa das regras da Academia) é o favorito, embora A Chegada ainda possa surpreender.

Qual seria meu voto: A Chegada (disparado!!)


Animação

Vai vencer: Zootopia

É divertido e tem ainda uma mensagem política sobre preconceito e inclusão, perfeita para o momento político americano atual.

Qual seria meu voto: Adoro Zootopia, mas A Tartaruga Vermelha está em outro nível, votaria nele.


Documentário

Vai vencer: OJ: Made in America

Se aqui valesse a regra dos curtas e filme estrangeiro de só poder votar quem provar que vi todos os indicados, diria que a vitória de OJ era certa, pois é impossível assisti-lo e não acha-lo infinitamente superior aos demais. Mas como sua duração é de quase 8 horas, isso pode afastar algumas pessoas e beneficiar A 13ª Emenda, que é dirigido por Ava DuVernay, com quem a Academia está em débito por não ter indicado por Selma. Porém, Oj venceu o Sindicato de Produtores e é o melhor, então aposto no bom senso, por mais que goste muito de A 13ª Emenda

Qual seria meu voto: gosto de todos, mas OJ: Made in America está MUITO acima dos demais, tem que vencer!


Edição de Efeitos Sonoros

Vai vencer: Até o Último Homem

Filmes de guerra sempre levam vantagem aqui, e Até o Último Homem tem um trabalho admirável, embora ainda seja possível que A Chegada surpreenda e leve este prêmio como “consolação”, já que tem poucas chances nas demais categorias.

Qual seria meu voto: A Chegada

P.S: se La La Land vencer aqui prova que a Academia tem que rever sua regra de deixar todos os membros votar em todas as categorias, pois ficará claro que a maioria nem sequer cabe do que se trata o trabalho de edição de efeitos sonoros.


Mixagem de Som

Vai vencer: La La Land

Musicais sempre levam vantagem nesta categoria, e La La Land é o queridinho da vez, não tem como não vencer.

Qual seria meu voto: A Chegada, por ser mais ousado, inovador, e narrativamente competente, mas La La Land também merece.


Curta Animação

Vai vencer: Piper

Qual seria meu voto: não poderia votar, pois só vi Piper (que achei de um primor técnico admirável), e nesta categoria só vota quem viu todos.


Curta Live-Action

Vai vencer: Ennemis Intérieurs

Qual seria meu voto: não vi nenhum dos indicados


Curta Documentário

Vai vencer: Capacetes Brancos

Qual seria meu voto: não vi nenhum dos indicados.


Filme Estrangeiro

Vai vencer: O Apartamento (Irã)

O alemão Toni Erdmann ainda pode ser o favorito, mas O Apartamento é um ótimo filme e que pode servir de prêmio político, já que seu diretor foi impedido de comparecer à cerimônia por causa das medidas xenofóbicas de Donald Trump.

Qual seria meu voto: meu preferido é Toni Erdmann, mas Oscar também é política, então votaria em O Apartamento (que também é um filme muito bom, não o escolheria se não fosse).


Trilha Sonora

Vai vencer: La La Land, não há dúvidas.

Qual seria meu voto: Moonlight tem meu tema favorito, mas Jackie tem o trabalho mais original e ousado, levaria meu voto.


Canção Original

Vai vencer: City of Stars (La La Land), outra praticamente ganha.

Qual seria meu voto: City of Stars


Maquiagem e Cabelo

Vai vencer: Star Trek: Sem Fronteiras

Como o franco favorito (Florence: Quem é Essa Mulher?) não foi sequer indicado, a categoria fica em aberto, todos podem vencer, mas aposto de Star Trek por ser um trabalho que chama a atenção e divide menos os votantes do que o sueco Um Homem Chamado Ove e o Esquadrão Suicida.

Qual seria meu voto: Star Trek

Figurino

Vai Vencer: Jackie... ou La La Land

La La Land tem de tudo para vencer o máximo de prêmios possíveis, porém a Academia normalmente não premia figurinos contemporâneos, e Jackie venceu os principais prêmios da temporada (incluindo o BAFTA, que tem coincidido com o Oscar nessa categoria nos últimos anos), então minha aposta vai nele, mas se La La Land vencer não será surpresa.

Qual seria meu voto: Jackie


Design de Produção

Vai Vencer: La La Land

Outra categoria que não há o que se discutir

Qual seria meu voto: La La Land


Fotografia

Vai vencer: La La Land, não há dúvidas.

Qual seria meu voto: A Chegada


Montagem

Vai vencer: La La Land

Que pena, pois o trabalho de montagem de A Chegada é tão primoroso...

Qual seria meu voto: A Chegada (seria um dos prêmios mais merecidos da noite)


Efeitos Visuais

Vai vencer: Mogli – O Menino Lobo

Mogli tem vencido os principais prêmios dessa categoria e deve vencer, mas não descarto surpresas de Doutor Estranho e até mesmo de Kubo e As Cordas Mágicas ou Rogue One.

Qual seria meu voto: Doutor Estranho



Crítica: Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi

Algumas histórias merecem ser contadas, e a que dá origem a este Estrelas Além do Tempo é uma delas. Pena que como cinema ela fique tão abaixo de seu potencial e tenha dado origem a um filme tão convencional que é impossível de não esquecer pouco tempo depois de tê-lo visto.


O roteiro escrito por Allison Schroeder e Theodore Melfi conta a história real de três mulheres negras que durante a corrida espacial (nos anos 60, enquanto ainda havia leis segregacionistas em estados americanos) ajudaram a NASA a mandar voos tripulados para o espaço e eventualmente para a Lua.

Escancarando sua pegada hollywoodiana desde seus segundos iniciais, o filme acaba pecando justamente por sua artificialidade e excesso de ironia dramática (quando o espectador sabe algo que os personagens não), por exemplo: quando as personagens são auxiliadas por um policial na estrada, uma delas comenta algo como “três mulheres negras sendo ajudadas por um policial branco em Virgínia, 1961” – uma fala que obviamente jamais teria acontecido de verdade e só serve para dialogar diretamente com o espectador e tirá-lo do filme, além de mastigar sua discussão temática que já poderia ter ficado clara apenas com as ações realizadas pelas personagens.

Além do mais, o roteiro ainda faz questão de incluir algumas falas que chegam a dar vergonha alheia tamanha a artificialidade, como “eu sou um judeu polonês cujos pais morreram em um campo de concentração”, ou então (o meu preferido) “aqui na NASA, todos mijamos da mesma cor”. Porém, o texto ao menos acerta em fazer com que a parte mais técnica da história, que envolve matemática avançada, consiga não ser entediante e soe convincente para o espectador, mesmo que ele não a entenda completamente.

E se o diretor Theodore Melfi (que já havia dirigido o fraquíssimo Um Santo Vizinho, que tinha um ótimo elenco, mas problemas sérios de tom) erra pela abordagem convencional e artificial (reparem como ele faz questão até de dar um zoom na placa do banheiro que diz “apenas pessoas de cor”, como se o espectador não pudesse identificá-la sozinho), ao menos acerta por ter um ótimo timing musical (no que diz respeito às canções, e não a trilha instrumental) e cria algumas sequências que, mesmo bobinhas, são bastante divertidas de assistir. Além disso, as canções presentes ao longo do filme são sempre em ritmos que trazem a representação do negro na cultura popular, como o soul.

Mas já a trilha instrumental composta pelo lendário Hans Zimmer é completamente exagerada, intrusiva, e melodramática, atrapalhando até mesmo bons momentos que poderiam ser muito mais impactantes – como a cena que traz uma personagem discursando em um tribunal.

Os figurinos por outro lado merecem créditos tanto por fazerem uma reconstrução de época eficiente quanto por comentarem visualmente o deslocamento das personagens em seus ambientes de trabalho, como ao trazer a protagonista vestida toda de verde enquanto todos os outros no recinto estão completamente de branco.

O elenco também está entre as coisas boas da obra. Enquanto Taraji P. Henson protagoniza o filme com carisma, evocando empatia no espectador pela doçura exibida no relacionamento com as filhas, Janelle Monáe é responsável por ótimos alívios cômicos e se diverte imensamente, conseguindo ainda trazer uma vulnerabilidade tocante para a personagem. Sendo assim, é uma pena que a atriz lembrada pelo Oscar para concorrer como coadjuvante tenha sido Octavia Spencer, que, além de ser a mais fraca das três, se limita a passar o filme todo arregalando os olhos e torcendo os lábios na convicção de que essa expressão seja de alguma forma evocativa ou engraçada.


Tendo também sua boa dose de momentos nacionalistas exagerados, Estrelas Além do Tempo conta uma história que deveria ter sido contada há muito tempo, sobre figuras que infelizmente não recebem o reconhecimento e respeito que merecem por conta da cor de sua pele. É uma pena então que uma história tão importante seja contada em um filme tão convencional e sem nada de novo.



O. K.


João Vitor, 9 de Fevereiro de 2017.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington

Apesar de vários clássicos do cinema terem sido adaptados do teatro (Fausto, O Pagador de Promessas, e Uma Rua Chamada Pecado servem de exemplo), o trabalho de transpor uma peça para as telas nunca é um trabalho fácil. Dentre outras coisas, porque no teatro não há câmeras, dessa forma não há uma montagem cinematográfica alternando planos mais abertos ou mais fechados, deixando a cargo das atuações e do texto muitas coisas que no cinema podem ser ditas de outras formas. Mas o que Denzel Washington faz aqui em sua adaptação da peça Fences (Cercas), que ele próprio já havia dirigido no teatro, é um trabalho admirável, uma vez que apesar de reverenciar bastante o trabalho original, traz na dose exata elementos cinematográficos que enriquecem sua ótima trama e seus complexos personagens.


O roteiro creditado ao próprio autor da peça original (que já morreu há mais de dez anos) segue Troy, um catador de lixo de meia idade, em sua relação com sua família. Não é uma história de grandes acontecimentos e reviravoltas, pois acima de tudo, o que importa é a relação e as sutilezas entre os personagens.

E tudo o que se vê em tela reflete a vida doída e desesperançosa desses personagens. Assim, a casa em que vivem exibe em seu exterior tijolos velhos e sujos, além de ser rodeada por árvores secas cheias de galhos mortos. Da mesma forma, seu interior tenta ser aconchegante, mas não consegue disfarçar certo desconforto, e suas cores pasteis refletem a tristeza daqueles que ali moram.

Os figurinos também seguem essa lógica, já que vestem os personagens com roupas modestas, e sempre com cores escuras. E a trilha sonora discreta, que é ausente em quase toda a projeção, também é eficiente tanto por passar a tristeza da narrativa, como também por dialogar com a linguagem do teatro, que naturalmente não traz sequências musicais que são tão comuns no cinema.

As atuações também são de extrema importância para a força do filme, uma vez que é uma história centrada em personagens. Denzel Washington no papel principal evoca com seus cabelos e braba grisalha toda a essência de um homem comum endurecido pela experiência, e convence mesmo com uma linguagem corporal extravagante (claramente uma herança de seu trabalho no teatro vivendo este mesmo personagem – o que não é necessariamente um problema). Já Viola Davis consegue, com a ajuda do bom roteiro, evitar que sua personagem seja apenas a figura genérica da “esposa do protagonista”, fazendo com que sua personagem seja uma figura com motivações e sentimentos próprios e tocantes, além de ter a oportunidade de protagonizar alguns dos momentos mais fortes de todo o filme que com certeza serão lembrados pela Academia na próxima cerimônia do Oscar.

Mas o que mais me impressionou no filme foi a direção segura de Denzel Washington, que mesmo reverencial ao texto original, consegue incluir personalidade própria e sempre de forma bastante sutil. Em diversos momentos, Washington e sua diretora de fotografia Charlotte Bruus Christensen optam por planos abertos em deep focus (quando tudo que está em tela fica em foco) que mostram vários personagens juntos em cena – algo que dialoga com a linguagem teatral, que por não ter câmeras, sempre traz vários atores juntos em cena. Em outros momentos eles optam por uma montagem mais convencional, com um personagem de cada vez em tela, mas mesmo nesses momentos mais comuns há espaço para sutilezas: reparem, por exemplo, como ao filmar uma discussão entre o protagonista e seu filho, Washington deixa seu personagem a princípio do lado esquerdo, mais fraco da tela, mas após ele tomar o controle da situação, passa a ocupar o lado mais forte e dominante, o direito.


Outras sutilezas também chamam a atenção no trabalho de direção, como ao trazer a câmera girando em torno dos personagens quando estes bebem uma bebida alcoólica, em uma sacada interessante e bem humorada na dose certa, ou então ao enfocar o protagonista por detrás de grades enquanto ele discute com sua esposa, reforçando seu sentimento de aprisionamento.

E por mais que o roteiro acabe parecendo um pouco reverencial demais com o texto original da peça, fazendo com que os diálogos às vezes se estendam mais do que o necessário e a duração total da projeção seja um pouco elevada, Cercas é um filme muito impactante, com uma excelente direção, um elenco fortíssimo, e que acima de tudo comove pelo drama e pela força de seus complexos personagens.

Ótimo!

João Vitor, 21 de Janeiro de 2017.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: Animais Noturnos, de Tom Ford

Animais Noturnos é um filme memorável e intenso, e que além de ser uma experiência narrativa complexa e envolvente, funciona incrivelmente bem graças aos seus personagens complexos e humanos.


A trama se inicia com a personagem Suzan (Amy Adams) recebendo um manuscrito de um livro de suspense de seu ex-marido. A partir daí o filme acompanha três tempos diferentes: a personagem lendo o livro e sua relação distante com o atual marido, flashbacks que mostram sua relação com seu antigo esposo (autor do livro), e a história encenada do livro em si enquanto a personagem o lê.

Como o esperado, a montagem do filme se mostra fascinante, já que acompanha de maneira ágil e dinâmica três tempos diferentes sem nunca parecer confusa ou irregular. Além disso, é interessante com os cortes de um tempo para outro muitas vezes incluem rimas visuais, como ao trazer um personagem dentro do livro tomando banho e cortar para um momento em que a personagem que está lendo também está no banho. E também é interessante como o filme em alguns momentos traz a protagonista como reflexo do próprio espectador: após acompanharmos uma cena muito intensa (que se passa no livro dentro do filme), a montagem corta para a personagem que está lendo reagindo ofegante e abalada – exatamente da mesma forma que o espectador.

Mas apesar da estrutura narrativa complexa, o que realmente importa no filme são seus personagens, e é interessantíssimo notar, conforme a narrativa avança, que a trama do livro reflete de alguma forma o próprio relacionamento entre a protagonista e seu ex-marido que escreveu a história – o que reforça um dos temas do filme que é o papel e o poder da arte.

Mas a parte técnica também não fica para trás, já que a fotografia é eficiente em diferenciar os diferentes núcleos narrativos: a “vida real” é fotografada com cores frias e sem vida, enquanto a trama do livro é cheia de cores quentes, remetendo quase a um western com pitadas noir. E também é interessante notar como a personagem principal utiliza sua forte maquiagem como um escudo para se esconder de sua vida, com a qual está insatisfeita (em certo momento ela diz: “Você já teve a impressão de que sua vida tomou um rumo que você jamais planejou?”): dessa forma, nos flashbacks que mostram sua vida com o ex-marido (um período esperançoso para ambos) ela surge com o cabelo mais natural e quase nenhuma maquiagem, já as cenas no presente, onde ela está insatisfeita, surge sempre com uma pintura fortíssima, e demonstra alívio ao retira-la depois de um dia estressante.

Outro ponto fortíssimo do filme é o seu elenco. Amy Adams (em seu segundo papel memorável somente neste ano) faz um excelente trabalho em diferenciar os dois momentos distintos de sua personagem, contrastando toda melancolia e desilusão no presente com a esperança nos flashbacks. Já Jake Gyllenhaal (outro que vem construindo uma carreira cada vez mais admirável) surpreende pela intensidade e equilibra muito bem a vergonha e a raiva de seu personagem sem precisar apelar para um overacting.


E enquanto Isla Fisher e Michael Sheen conseguem ser marcantes mesmo com papéis pequenos, Aaron Taylor-Johnson surge detestável e completamente diferente de tudo que já fez em sua carreira. E Michael Shannon rouba a cena como sempre, com um típico coadjuvante que mereceria um filme próprio.

Trazendo ainda várias sequências intensas e marcantes (uma que se passa em uma estrada de madrugada está entre as melhores coisas que vi este ano), Animais Noturnos é um filmaço que além de funcionar como entretenimento e exercício narrativo, traz personagens complexos que ficam com o espectador mesmo depois dos créditos finais.

Ótimo!


João Vitor, 29 de Dezembro de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/