domingo, 23 de outubro de 2016

Crítica: A Quinta Onda, de J. Blakeson

“A Quinta Onda” é um filme que você começa pensando que pode ser bom, e termina sabendo que não pode ficar pior. Pode parecer exagero, mas este novo trabalho do diretor J. Blakeson não acerta em nada.


 Desde os primeiros minutos o longa já deixa claro que não vai ser original (aliens que invadem a Terra para roubar recursos naturais, protagonista adolescente que é apaixonada por um garoto popular...), mas isso não necessariamente significa que ele seria ruim. “Corrente do Mal” e “Jurassic World”, ambos do ano passado, são dois exemplos de filmes clichês, mas extremamente eficientes.

O problema é que “A Quinta Onda” é tão preguiçoso que nem se esforça em brincar com seus clichês e nem sequer percebe o potencial da premissa que tem em mãos (até mesmo a questão de como o ser humano é pior que os aliens é resumida em – não estou exagerando – uma linha de diálogo).


Mesmo com o plot completamente batido ainda seria possível o filme criar pelo menos algumas sequências interessantes, mas mais uma vez, ele é estúpido demais até para pensar nisso, já que inclui até mesmo o clichê de um personagem correndo com a mão esticada atrás de um carro que leva uma pessoa querida.

Como se não bastasse, o roteiro ainda apela para a velha tática preguiçosa e expositiva de trazer a protagonista escrevendo um diário para passar as informações que o espectador precisa saber, e ainda faz questão de incluir um triângulo amoroso completamente gratuito para tentar aumentar seu apelo para o público jovem (vida os recentes sucessos de séries como “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”).

A direção de J. Blakeson também não ajuda, sendo incapaz de criar tensão (tendo que apelar para sustos fáceis para tentar se validar como “suspense”) e demonstrando um total desconhecimento de como dirigir as sequências de ação, já que além de abusar da câmera tremida, ele ainda mantém o quadro constantemente fechado nos rostos dos atores, o que não dá ao espectador a dimensão grandiosa do que está acontecendo.

A parte técnica também não se salva. A trilha é repetitiva na ação e melodramática nas cenas que deveriam ser intimistas, e o trabalho de mixagem de som é pavoroso, fazendo com que a música e os diálogos sejam completamente inaudíveis durante as sequências de ação.

Em relação ao elenco, é preciso dizer que Chloë Grace Moretz protagoniza o filme com segurança, ainda que obviamente seja muito prejudicada pelo péssimo roteiro. Já Liev Schreiber (ator que já elogiei imensamente em meu texto sobre Spotlight) nada pode fazer com seu personagem, que o extremo da caricatura do militar durão (e as cenas que o trazem fazendo discurso são particularmente embaraçosas).


E se o filme parece que vai ficar interessante por um breve momento, ao incluir uma reviravolta que poderia dar uma camada de profundidade à trama (em relação à mecanização do militarismo), é só para um minuto depois deixar esse potencial completamente de lado e voltar a apostar em seus velhos clichês.

Enfim, mesmo com todos seus clichês, é necessário reconhecer que o filme tem uma coisa única: ele tenta ser um drama familiar, um romance adolescente, um filme catástrofe, um suspense alienígena... e consegue ser ruim em todos.


Ruim.

João Vitor, 23 de Janeiro de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: A Bruxa, de Robert Eggers

“A Bruxa” é um ótimo filme, mas que com certeza vai desagradar todos que vão ao cinema em busca de um filme terror convencional e genérico apenas para sentir medo e tomar sustos.

Ambientado na Nova Inglaterra, em 1630, o filme acompanha uma família (pai, mãe e cinco filhos) que, após serem expulsos de sua comunidade devido à seu fundamentalismo religioso, se mudam para um lugar isolado à beira da floresta. E após seu filho recém-nascido desaparecer misteriosamente, surge a suspeita de que existe uma bruxa por perto.



Mas ao contrário do que pode parecer pela premissa, o filme se mostra muito mais interessado em criar uma clima de desconforto e inquietação do que em cenas de terror mais gráficas e sustos fáceis.
E é justamente ao focar em seus personagens que o filme encontra sua força. Apostando em uma narrativa lenta, com uma fotografia completamente desprovida de saturação, e uma ausência quase completa de trilha instrumental, o diretor estreante em longas Robert Eggers demostra um incrível controle sobre seu universo. Sem nunca apelar para um jogo de câmera mais estilizado ou sequências de ação grandiosas, o diretor mantém o espectador interessado através de minimalismos e sutilezas (reparem como os olhares dos personagens acabam dizendo muito mais do que os diálogos em si), deixando as sequências tensas surgirem de maneira natural (como aquela que se passa à noite em um estábulo, no terceiro ato da projeção).

As excelentes atuações também se mostram de fundamental importância para o funcionamento do filme. Kate Dickie convence como uma mulher que tem qualquer resquício de felicidade arrancada após a perda do filho, enquanto Ralph Ineson usa sua rigidez com os costumes cristãos como uma tentativa de esconder sua dor (e a cena que o traz falando para seu filho mais velho que “os lobos ou a fome já o levaram” representa um dos momentos mais memoráveis da narrativa).

Já Anya Taylor-Joy é possivelmente a maior surpresa do elenco. Protagonizando o filme com segurança, a jovem atriz passa com muita sutileza não só o sentimento de culpa de sua personagem (afinal, o bebê estava em seus cuidados quando desapareceu) como também sua inquietação diante dos rígidos hábitos religiosos de sua família (e não é à toa que uma de suas primeira cenas a traga se confessando pelo pecado de “quebrar os mandamentos em pensamento”).



Não que o filme seja perfeito, pois não é. Como muitas outras obras que dependem muito do suspense (até o recente “Ex Machina” serve de exemplo), a narrativa perde um pouco de sua força ao finalmente revelar suas cartas e deixar o espectador entender tudo o que está acontecendo. É claro que isso de certa forma é um mal necessário, e também é preciso admitir que o desfecho da trama é bem redondinho, mas não tem como negar que o suspense era muito mais eficiente.

Sem basear seu terror em sons altos inesperados ou monstros assustadores criados por computação gráfica, “A Bruxa” é um filme que pode desagradar quem quer um filme para perder o sono ou pular na cadeira, mas vai agradar muito qualquer um que esteja à procura de um filme diferenciado, que se preocupa muito mais com sua atmosfera e seus personagens do que qualquer outra coisa. E qualquer filme que se mostre interessado em criar algo realmente original merece atenção.


Muito Bom!
João Vitor, 4 de Março de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Crítica: Inferno, de Ron Howard

Não é por acaso que os livros de Dan Brown são um sucesso. Com tramas interessantes e diversas curiosidades históricas, as obras ainda se beneficiam por terem uma linguagem acessível e capítulos curtos (que constantemente terminam em uma pequena reviravolta), proporcionando assim uma experiência divertida e cativante para qualquer leitor.


Mas também não é a toa que as adaptações cinematográficas de sua obra fiquem bem abaixo do esperado, já que necessitam de muitos diálogos expositivos e trazem problemas estruturais óbvios.

E este novo Inferno se mostra o pior título de sua franquia, pois além dos problemas já presentes nos filmes anteriores, agora até mesmo a trama com potencial e as belas locações não conseguem disfarçar a fragilidade temática e estrutural de um filme que simplesmente não justifica sua existência.



Mais uma vez acompanhando o professor Robert Langdon (Tom Hanks), o filme começa em Florença com o personagem hospitalizado por conta de um atentado a bala. Logo ele descobre que um bilionário que recentemente cometeu suicídio estava planejando soltar uma peste para aniquilar parte da população humana e resolver o problema da superpopulação. Mais uma vez, o professor irá encarar enigmas e quebra-cabeças e contará com a ajuda de uma bela e inteligente moça (Felicity Jones).

A estrutura do roteiro (escrito por David Koepp) incomoda não só pela similaridade com os capítulos anteriores, mas também – principalmente – por se render ao velho e artificial clichê de trazer um protagonista com amnésia que vai convenientemente se lembrando de fatos importantes conforme as necessidades da trama. Isso sem contar que ter cenas de alucinações a cada minuto durante a primeira meia hora de projeção é algo completamente aborrecido.

E, além disso, os diálogos expositivos (um problema mais fácil de contornar no livro, onde você pode ter um narrador onipresente explicando algo sem parecer muito artificial) são tantos que o roteiro se vê na obrigação de trazer a personagem de Felicity Jones dizendo que “perguntas são importantes, pois vão te ajudar a se recuperar” – em uma tentativa frustrada de justificar um erro imperdoável. E devo confessar que ri em determinado momento onde Tom Hanks, examinando um artefato, exclama “Olha só, há um texto!” – literalmente narrando o que estamos vendo e mostrando que o roteirista realmente não confia nem nos olhos do espectador.

E vale lembrar que aponto esses problemas não por um preciosismo técnico, mas sim porque eles prejudicam a própria relação entre os personagens, que por nunca terem uma conversa minimamente convencional um com o outro, acabam parecendo robôs que só existem para fazer a história ir para frente (reparem como a inteligência acima do comum da personagem de Felicity Jones não desempenha papel algum na trama) – e isso prejudica tematicamente o filme, e também fragiliza sua principal reviravolta – que (sem spoilers) posso dizer que depende essencialmente da humanidade de um certo personagem para realmente convencer.

E justamente por sacrificar seus personagens em prol de uma narrativa cheia de ação e informações, o talentoso elenco fica completamente debilitado – já que, como disse antes, os personagens nada mais são do que instrumentos para a ação continuar. Sendo assim, basta aos atores dizerem suas falas naturalmente que já cumprem seus papéis, uma vez que não podem criar figuras humanas ali. Algo que se torna ainda mais lamentável quando você tem um elenco recheado de talentos como Tom Hanks, Felicity Jones, Omar Sy, Ben Foster e Irrfan Khan.

Já a direção do experiente e – na maioria dos casos – eficiente Ron Howard é mais uma vez “certinha” e sem personalidade. Abusando de câmeras subjetivas, imagens desfocadas para sugerir tontura, cortes rápidos e câmera tremida em cenas de ação, músicas aceleradas, batidas de coração para gerar suspense, tudo aqui é correto do ponto de vista formal, mas nada é tão eficiente quanto poderia. Além disso, ver sequências de ação ininterruptas filmadas no “automático” durante duas horas não é algo muito empolgante, e acaba deixando o filme bem mais cansativo do que o necessário.


Errando ainda por apresentar uma personagem importante apenas em seu terceiro ato, Inferno é um filme tematicamente raso que não explora o potencial de sua premissa, além de ter um roteiro completamente problemático em todos seus aspectos e que mostra que um livro divertido não necessariamente vai dar origem a um bom filme.

Regular


João Vitor, 17 de Outubro de 2016.

sábado, 17 de setembro de 2016

Crítica: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

Aquarius, novo filme do diretor Kleber Mendonça Filho, é um filme recheado de momentos de encher os olhos de lágrimas, sejam de satisfação, melancolia ou felicidade. Com uma trama simples, mas de muita força emocional, o filme é mais do que uma história de resistência contra um sistema que visa o lucro acima de tudo, é também uma celebração das pequenas coisas belas que nos definem como seres humanos.

O roteiro escrito pelo próprio diretor, acompanha Clara (Sônia Braga), uma jornalista aposentada que luta contra os esforços de uma construtora que quer comprar seu apartamento para poder demolir o prédio e construir um centro comercial.

Com uma belíssima fotografia que, sempre cheia de cores quentes, reforça o sentimento de carinho entre os personagens, e uma trilha sonora que vai de Queen à Gilberto Gil, o filme se mostra sempre disposto a celebrar pequenos momentos prosaicos que emocionam por sua beleza e simplicidade, como o prazer de ouvir uma música querida em alto som, ou um coro de feliz aniversário em família. Além disso, o filme traz ainda um leve senso de humor peculiar que serve como um charme discreto e aumenta ainda mais a doçura da narrativa (e a cena que envolve um envelope em baixo de uma porta, logo no início, é hilária!).


Mas mesmo com uma trama simples e uma abordagem apropriadamente mais discreta que em seu filme anterior (o fantástico O Som Ao Redor), Kleber Mendonça Filho consegue brindar o espectador com uma narrativa altamente sofisticada, dividida em três partes que, ao invés de simplesmente quebrar a trama em começo meio e fim, servem para enriquecer o filme tematicamente (reparem bem nos nomes de cada capítulo).

O elenco é homogeneamente fantástico. Sônia Braga não apenas protagoniza o filme com segurança como ainda consegue incluir doçura até em gestos completamente cotidianos, como um cochilo na rede ou uma volta para casa depois de um passeio na praia. Humberto Carrão, por sua vez, foge completamente de um vilão caricatural, e consegue convencer como alguém detestável, mesmo que cordial. Já Maeve Jinkings traz uma bela fragilidade para sua personagem (filha da protagonista) e ainda comanda, junto com Sônia Braga, a cena mais forte emocionalmente de todo o filme.


Sendo politicamente consciente, mas acima de tudo humano, Aquarius é um belíssimo filme que prova mais uma vez que Kleber Mendonça Filho está entre os melhores diretores de sua geração. E não deixa de ser curioso ver que em determinado momento do filme alguns personagens dancem ao som de “Recife, Minha Cidade”, de Reginaldo Rossi, que em um de seus versos traz a frase “É um pedacinho do Brasil”, pois afinal, Aquarius também pode ser visto como um retrato do melhor lado da cultura brasileira, e em um momento político tão conturbado e desesperançoso, um pouco de afeto é muito bem-vindo.

Ótimo!


João Vitor, 17 de Setembro de 2017.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Crítica: X-Men: Apocalipse, de Bryan Singer

Dentre as inúmeras franquias de super-heróis baseadas em quadrinhos, a melhor delas é sem dúvidas a dos X-Men. Isso porque além de filmes de ação e aventura competentes, suas tramas são sempre recheadas de personagens cativantes, que mesmo dotados de superpoderes, enfrentam dificuldades humanas como o preconceito e a auto aceitação. E ainda que este novo X Men: Apocalipse seja bem menos ambicioso do que seus antecessores do ponto de vista temático, ainda trata-se de um filme muito divertido, que agrada os fãs da saga e ainda se equilibra muito bem entre o sombrio e o cartunesco.


Ambientado nos anos 80, aproximadamente 10 anos após os eventos de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, o filme acompanha o professor Charles Xavier (James McAvoy) e seus alunos em sua luta contra o recém-despertado Apocalipse (Oscar Isaac), que pretende destruir a humanidade para construir um mundo apenas de mutantes.

O principal problema que o roteiro enfrenta é o excesso de personagens (algo que também atrapalhava o subestimado X-Men 3: O Confronto Final), afinal, todos os personagens importantes da saga estão de volta aqui, além de várias caras novas que desempenham papeis importantes. Isso acaba deixando o filme um pouco sem foco em sua hora inicial, parecendo não saber quem é seu protagonista.

O principal centro emocional do filme está em Magneto (em mais uma atuação excelente de Michael Fassbender), que protagoniza aqui uma das cenas de maior impacto dramático de toda a franquia. Mas como a duração é longa e há muitos outros personagens, Fassbender acaba aparecendo bem menos do que deveria, e isso o impede de se estabelecer como centro dramático do roteiro.

Já James McAvoy como Charles Xavier se prejudica por ter que protagonizar os momentos de humor mais desajeitados do filme (como a cena que envolve uma árvore destruída), além de uma subtrama artificial com a personagem de Rose Byrne (que parece estar no filme apenas para dizer diálogos expositivos).

E se a Mística de Jennifer Lawrence atrapalha um pouco por receber atenção demais apenas porque a atriz é uma grande estrela, os personagens “novos” (já presentes na trilogia original, mas agora em nova geração) acabam funcionando surpreendentemente bem. Jean Grey (vivida com inexpressividade por Sophie Turner) serve como centro dos novos personagens e ainda desempenha um importante e convincente papel no clímax do filme. Tye Sheridan como Ciclope se mostra à vontade nas cenas mais descontraídas, ainda que deixe um pouco a desejar nos momentos dramáticos. Já o Noturno (o jovem, mas experiente Kodi Smit-McPhee), além de ter uma das habilidades mais eficientes (teletransporte), funciona também como alívio cômico.



O mesmo não pode ser dito dos novos capangas do vilão, Tempestade (Alexandra Shipp), Psylocke (Olivia Munn) e Anjo (Ben Hardy). Ainda que este último seja o centro de uma das melhores cenas do filme (aquela ao som de “The Four Horsemen”, do Metallica), faltam a eles humanidade e arcos dramáticos (Tempestade até tem, mas não há tempo de desenvolvê-lo com o cuidado necessário). E enquanto Ben Hardy e Alexandra Shipp se resumem a uma sequência de apresentação e uma participação de ação no clímax, Olivia Munn nem isso tem.

O que nos leva, é claro, ao grande vilão e título do filme, Apocalipse, vivido pelo espetacular Oscar Isaac (de inúmeros filmes memoráveis, dentre eles Drive, Inside Llewyn Davis, Ex Machina, Star Wars: O Despertar da Força e O Ano Mais Violento). E o fato é que mesmo com um discurso genérico de “destruir o mundo”, o personagem acaba funcionando, já que acaba sendo uma ameaça real para os heróis – ainda que a conclusão do conflito (mesmo coerente) soe um pouco “fácil” demais. Vale dizer também que a atuação de Isaac é ótima, e o ator merece muitos créditos por conseguir soar ameaçador utilizando apenas a voz e o olhar, mesmo com uma caracterização física quase cômica.


A direção de Bryan Singer também merece destaque, principalmente por trazer eficientes sequências de ação, com uma violência cartunesca bem mais gráfica do que o usual (ainda que o excesso de CGI e a repetição de efeitos como o de objetos sendo transformados em pó incomode bastante), e ainda conseguir equilibrar bem o tom do filme entre o sombrio (destaque mais uma vez para a já citada cena dramática envolvendo Michael Fassbender) e o bem humorado (destaque para o visual colorido anos 80 dos vilões, e também para a participação de Evan Peters como Mercúrio, que é responsável pelas melhores piadas do roteiro).

Sendo um filme um pouco irregular, mas muito divertido e que faz jus aos seus antecessores, X-Men: Apocalipse não é muito ambicioso do ponto de vista temático, mas tem boas sequências de ação e um bem dosado senso de humor. E ainda que eu particularmente esteja cansado de tantas sequências entre os blockbusters americanos, em relação a esta saga só me resta dizer uma coisa: que venha o próximo filme!

Bom!


João Vitor, 20 de Maio de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: Capitão América: Guerra Civil, de Anthony e Joe Russo

Ao longo dos últimos anos poucos filmes da Marvel puderam ser classificados como menos do que razoáveis ou bons, mas também poucos puderam ser chamados de originais (talvez apenas Guardiões da Galáxia e Capitão América: O Soldado Invernal). Este novo Capitão América: Guerra Civil não tem nada de original ou inovador, mas ao menos prova que “mais do mesmo” pode até ser cansativo, mas se for bem feito pode voltar a divertir.


Ambientado pouco tempo depois dos acontecimentos de Vingadores 2: A Era De Ultron, o filme tem início com mais uma ação dos heróis que resulta em tragédia, o que leva as Nações Unidas a propor um acordo que limita a liberdade dos Vingadores, fazendo-os agir como ferramenta de governo. Mas enquanto Tony Stark se mostra favorável à ação, Steve Rogers não a aceita, o que eventualmente resultará em conflito entre ambos.

Talvez o principal mérito do filme seja humanizar as tragédias vistas nos filmes anteriores, dando alma a algo que até então era apenas um show de efeitos visuais. E justamente por isso, as motivações de todos os personagens ficam plausíveis e o roteiro foge da unidimensionalidade, deixando o espectador refletir e se identificar com todos os lados – entendemos a culpa de Tony Stark por todas as mortes que ele não pôde evitar, mas também entendemos a relutância de Steve Rogers, pois afinal, ele já foi usado como ferramenta de governo em seu primeiro filme e isso não acabou bem.

A direção é dos irmãos Anthony e Joe Russo (também responsáveis pelo ótimo Capitão América: O Soldado Invernal) e sua principal virtude são as cenas de ação. Mesmo que abusem de câmera tremida (o que também prejudica o 3D) e repitam algumas coreografias (em vários momentos, por exemplo, vemos personagens despencando de algum lugar alto batendo em diversos obstáculos até chegar ao chão), os diretores acertam por não exagerarem na dimensão dos conflitos (nada de prédios despencando e aviões caindo a todo o momento) deixando a ação mais crível, e sempre trabalhando muito bem a mise-en-scène, deixando claro o que cada personagem está fazendo e onde – também fazendo um uso eficiente e inventivo dos poderes e habilidades de cada um deles.


Como não poderia deixar de ser, o filme se prejudica um pouco pelo excesso de personagens, mas ao menos não se perde incluindo muitas subtramas. Dentre os personagens novos, os que mais se destacam é o Pantera Negra e, é claro, o Homem Aranha. E o fato de eles funcionarem tão bem até empalidece um pouco o fato de eles serem jogados na trama completamente do nada. E enquanto o Pantera Negra é o responsável pela minha sequência de ação preferida do longa, o Homem Aranha protagoniza seus momentos mais engraçados – e a referência que ele faz à um clássico do Cinema (não revelarei qual para não estragar a surpresa) é talvez o momento mais inspirado do roteiro. Aliás, destaque para o designe do uniforme do personagem, que o deixa com aparência juvenil e descontraída, ao mesmo tempo em que podemos perceber suas expressões (reparem nas mudanças no tamanho de seus olhos).


O elenco também está bem, ainda que um pouco irregular. Enquanto Tom Holland se diverte bastante como Homem Aranha, Daniel Bhürl (dos excelentes Adeus Lênin, Bastardos Inglórios e Rush) pende para a caricatura com seu vilão que só fala com a voz sussurrada e com uma expressão ameaçadora (ainda que o roteiro acerte em tornar suas motivações plausíveis). Já Robert Downey Jr. mais uma vez não traz nada de novo em sua interpretação no automático de Tony Stark, mas pelo menos seu personagem desta vez tem uma interessante e bem vinda complexidade dramática, e não se resume apenas a um alívio cômico.

Mas o filme também não deixa de ter sua boa dose de defeitos. O tom da primeira hora de projeção é estabelecido como sendo completamente melancólico e pesado, apenas para de uma hora para outra (com a entrada do Homem Aranha e Homem Formiga) passar a ser completamente engraçado e com piadas a cada minuto, e após o fim da principal sequência de ação do filme, o tom volta a ficar pesado e melancólico. Vale dizer que o clima de tensão criado é muito eficiente, e boa parte das piadas também funcionam, mas o problema é que a transição de um tom para outro é feita sem fluência nenhuma e sem qualquer justificativa narrativa (a sequência cheia de humor só está lá porque é o que se espera de um filme da Marvel).

Além disso, em questão de estrutura o filme se prejudica bastante por trazer seu principal combate faltando mais de meia hora para o fim da projeção, o que faz com que toda a sequência final se torne muito mais cansativa do que deveria, e os créditos finais sejam recebidos até com certa dose de alívio (a duração de duas horas e meia também não ajuda), principalmente porque o desfecho se acovarda ao não modificar completamente o universo criado até ali quando tem a chance – fazendo com que a tendência para o próximo filme seja de novo ser mais do mesmo.

Sendo um filme que vale o ingresso e diverte mesmo sendo cansativo, Capitão América: Guerra Civil mostra que a Marvel ainda tem medo de arriscar novos caminhos, mas cumpre seu papel sendo um bom filme que prova que “mais do mesmo” pode ser satisfatório quando bem feito.

Bom!

João Vitor, 28 de Abril de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

sábado, 14 de maio de 2016

Crítica: O Conto dos Contos, de Matteo Garrone

“O Conto dos Contos” é um filme que mesmo com uma estrutura irregular acaba valendo muita a pena devido à sua originalidade e sua capacidade de equilibrar fantasia, suspense e comédia.


O roteiro acompanha três histórias de fantasia medieval simultaneamente: a primeira acompanha um casal de reis (John C. Reilly e Salma Hayek) que tentam vencer a esterilidade com um ritual envolvendo um monstro marinho; a segunda envolve outro rei (Toby Jones), sua filha prestes a se casar e uma pulga gigante; e a última também acompanha um rei (Vincent Cassel), que se apaixona por uma bela voz sem saber que esta pertence a uma velha.

Contando sua história muito mais através de imagens e construção de atmosfera do que de diálogos (o que pode incomodar os espectadores mais impacientes), o filme consegue ao mesmo tempo ser uma grande produção hollywoodiana de época, mas também uma obra mais pessoal, apostando em um senso de humor peculiar e uma atmosfera sombria.


Toda a parte técnica é impecável. O uso de locações dá ao filme uma grande tangibilidade (destaques para a cena passada no terraço do castelo e outra passada em um labirinto de pedra), e o designe de produção é eficiente em criar um universo fabulesco, que traz ao mesmo tempo o exagero e o glamour característicos das cortes medievais, e também interessantes toques sombrios com um peculiar senso de humor. Já a trilha sonora, além de utilizar constantemente instrumentos característicos da época, se equilibra apropriadamente entre o fantasioso e o sombrio.


O elenco também merece créditos, principalmente por não se renderem a caricaturas e convencerem mesmo interpretando personagens que se encaixariam em contos de fadas unidimensionais.

O único problema do filme é mesmo sua estrutura. Ao contar suas histórias praticamente paralelas ao mesmo tempo, o diretor impede um envolvimento maior por parte do espectador, pulando de uma trama para outra sem fluência alguma (e o fato da projeção durar mais de duas horas agrava o erro), além de não encontra um desfecho satisfatório para nenhuma delas. Talvez o formato de antologia (contando uma história de cada vez) pudesse ter funcionado melhor.



Tendo ainda diversos momentos marcantes (a cena que envolve um mostro marinho e outra que traz uma corda bamba sobre um precipício são minhas favoritas), “O Conto dos Contos” pode até se prejudicar pela sua estrutura, mas pelo seu universo peculiar consegue se estabelecer como um filme muito competente e acima de tudo original.

Muito Bom!

João Vitor, 14 de Maio de 2016.