domingo, 8 de novembro de 2015

Crítica: Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg

Steven Spielberg tem um talento inquestionável. Durante seus mais de 40 anos de carreira realizou vários trabalhos que podem facilmente ser considerados como “clássicos”, e influenciou boa parte da nova geração de cineastas, direta ou indiretamente. E por mais que alguns títulos recentes como “Cavalo de Guerra” e “Lincoln” se rendam ao exagero e se encontram comprometidos por um puro melodrama, é impossível não criar expectativas a cada anúncio de um novo filme seu.

Baseado em uma história real o roteiro de Matt Charman revisado pelos irmãos Coen acompanha o advogado James Donovan (Tom Hanks) em sua defesa de um agente soviético capturado, Rudolf Abel (Mark Rylance), e, posteriormente, sua tentativa de trocá-lo por um jovem piloto americano capturado em solo inimigo.

Já de cara é necessário aplaudir a imparcialidade política do filme, que não se rende ao patriotismo cego de muitos filmes americanos. Ao contrário de inúmeros títulos (tais como “Sniper Americano” e “O Franco Atirador”) que trazem os inimigos como pessoas excessivamente frias e inconsequentes, e americanos como heróis racionais e patrióticos, Ponte dos Espiões é um filme que não hesita em criticar a própria postura americana em época de guerra.



Em um determinado momento, por exemplo, vemos uma turma de crianças aterrorizadas sendo forçadas a assistirem a vídeos mostrando os estragos que os inimigos poderiam causar com suas bombas atômicas – ignorando que o próprio Estados Unidos havia destruído duas cidades cheias de inocentes com bombas idênticas alguns anos antes. Aliás, essa crítica à paranoia criada pela mídia está longe de ser algo exclusivo do passado, já que até alguns anos atrás o governo Bush utilizava da mesma estratégia para validar sua “guerra ao terror”.


Outro momento interessante e politicamente relevante no filme é quando vemos o americano preso pelos soviéticos sendo condenado a uma pena mais baixa do que o agente soviético havia sido nos EUA, e enquanto o tribunal americano é cheio de bagunça, com pessoas ameaçando e clamando pela pena de morte, o tribunal soviético é organizado e calmo.



É claro que o filme também não vira o jogo e mostra os soviéticos como o bem e os americanos como o mal (e nem deveria), já que o próprio americano preso na URSS é mostrado sendo impiedosamente maltratado na prisão. Mas o que o filme faz é mostrar que em uma guerra não importa os seus ideais, já que os dois lados serão capazes de atitudes desumanas. Neste quesito, Ponte dos Espiões se assemelha muito ao excelente Munique, de 2005 (talvez o melhor filme recente do Spielberg), que também fugia das generalizações, e não hesitava em criticar os horrores cometidos pelos dois lados do conflito.

Outro mérito do roteiro (e muito da direção também) é conseguir manter o espectador vidrado por mais de duas horas apenas pela força de sua trama e seus ágeis diálogos, sem nunca perder o ritmo ou apelar para cenas artificiais de ação gratuita.


Já seu senso de humor (muito provavelmente fruto da revisão dos excepcionais irmãos Coen), que é ao mesmo tempo discreto e exagerado, às vezes soa um pouco esquisito, ficando um pouco dissonante com seu drama, mas aos poucos isso também acha seu lugar, e o filme consegue criar momentos onde um risinho de canto de boca vem ao espectador de maneira espontânea e bem-vinda (destaque para as cenas envolvendo a família do agente soviético e outra envolvendo um aperto de mão).


Em relação à direção, Spielberg conduz o filme com uma segurança invejável, sem chamar demais a atenção para si. O fato de o filme ser melodramático não é novidade, já que o diretor parece nunca abrir mão de sua capacidade de criar momentos propícios a lágrimas. A grande questão é se este recurso funciona ou não, já que se utilizado em exagero acaba comprometendo o impacto da cena. Por exemplo: a cena das pedras no final de “A Lista de Schindler” é indiscutivelmente melodramática, mas é também bem dosada e funciona para fazer o espectador ir para os créditos emocionado; já o último ato de “Inteligência Artificial”, ou todas as partes de “Cavalo de Guerra”, servem como exemplos de um melodrama mal utilizado que compromete o impacto dos acontecimentos pela sua artificialidade.

Neste seu novo filme, seu melodrama ultrapassa um pouco o limite aqui e ali (como na rima visual envolvendo pessoas pulando um muro em diferentes lugares do mundo), mas de modo geral se mostra bem contido e não chega a atrapalha o resultado final, o que acaba sendo um grande alívio para qualquer fã do diretor.


Já as atuações são completamente impecáveis. Tom Hanks mostra que sempre consegue surpreender e protagoniza o filme de maneira perfeita, e confesso que não consigo pensar em nenhum ator que faria este papel tão bem quanto ele. Já Mark Rylance (o soviético capturado) surge como a grande surpresa do elenco, criando um personagem que conquista a admiração do espectador mesmo que este acredite que ele se encontre do “lado errado” (vide alguns parágrafos acima) da guerra.


A fotografia de Janusz Kaminski (parceiro de longa data de Spielberg) é linda (destaque para as cenas passadas na gelada Berlim) e a reconstrução de época é cuidadosa e competente, e deve garantir ao filme uma indicação aos óscares de melhor figurino e designe de produção.


Se encerrando com um letreiro que resume o resto da vida dos personagens principais (um recurso clichê que já foi usado milhões de outras vezes, mas que se bem dosado - como é o caso – funciona muito bem), Ponte dos Espiões é desde já um forte candidato para a temporada de premiações do final do ano, e, mais do que isso, é um trabalho admirável daquele que é um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos.

Muito Bom!
João Vitor, 7 de Novembro de 2015.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Crítica: Quarteto Fantástico, de Josh Trank


Quarteto Fantástico


Uma leve defesa para o filme mais criticado do ano


O texto a seguir foi inicialmente planejado para ser um breve comentário para o site filmow, mas acabou se estendendo em uma análise mais completa e decidi publicá-lo aqui.



Realmente, o filme é bem fraco, mas na minha opinião, também está longe de ser esse desastre todo que estão falando. Fiquei com a impressão de que com a má recepção da crítica, muita gente já foi pro cinema esperando ver um filme ruim, e como o primeiro ato é um desastre, é fácil desistir e dizer que o filme é todo um lixo, o que não é verdade.


O primeiro ato, como eu já disse, é um desastre: recheado de clichês (poucas coisas são mais ultrapassadas que o jovem menino gênio, que sofre bullying na escola e constrói uma incrível máquina na garagem de casa) e diálogos pavorosos, que não consegue criar nem um momento sequer um pouco engraçado.





Já o segundo ato é muito interessante, mesmo. A dinâmica entre os personagens (muito em função do talento dos atores) funciona, o filme consegue criar momentos cômicos leves e orgânicos, e a ação é interessante (destaque para a cena em que os personagens viajam para a outra dimensão, logo antes de ganharem seus poderes). É claro que ainda tem algumas falhas (a cena que traz os personagens discutindo a possibilidade de usarem a máquina escondidos é particularmente falha), mas ainda assim, como um todo, funciona.

Ah, sim, e tem uma referência ao Borat - como não gostar?


Finalmente, temos o terceiro ato, que foi disparado a parte mais criticada por todos. Particularmente, o achei bem falho, mas não acho que seja um desastre completo. As cenas de ação não têm nada de mais, mas também não são vergonhosas. O vilão também tem prós e contras: suas motivações não são absurdas (um jovem que não é ninguém em sua vida e de repente pode ser o rei de um mundo não é uma premissa ruim), mas o problema é que elas soam muito radicais, pois sua transformação é feita muito rápido (um problema que atingia também o personagem de Jamie Foxx no subestimado “O Espetacular Homem Aranha 2:A Ameaça de Electro”, do ano passado).


Mas o que realmente prejudica este terceiro ato, e acabou comprometendo a experiência para muita gente, é que é nele que todas as fragilidades da estrutura do filme se expõem.

Soa extremamente tolo o fato de o Victor Von Doom sumir no começo, passar metade do filme sem aparecer ou influenciar nada, e de repete surgir como o grande antagonista dos heróis. Outra coisa que prejudica é o fato do clímax não ter preparação nenhuma: o filme está vindo em um determinado ritmo, e se saindo muito bem, e de repente, um minuto depois, os personagens já estão se enfrentando na batalha final.

Mas, sejamos honestos, o visual do Dr. Destino merece créditos, pois não apenas é interessante como também é coerente dentro da lógica estética do filme, sem parecer cartunesca ou exagerada. Além disso, o personagem tem uma presença intimidadora muito forte (destaque para o momento em ele se levanta, logo após se revelar como o vilão, e a câmera acompanha o seu caminhar em um plano contra-plongée – momento este que me causou mais impacto do que qualquer um presente em “Homem-Formiga”, por exemplo).

Sendo extremamente irregular, mas não um desastre completo, este novo “Quarteto Fantástico” é uma nota desafinada em um ano em que as grandes produções hollywoodianas vêm se mostrando surpreendentemente coesas e competentes (Mad Max, Jurassic World, Divertida Mente e Missão Impossível vem à mente), mas é também um filme injustamente detonado por quem entra na sala de cinema com pré-conceitos já construídos e se cega para suas eventuais virtudes.

O.K.

João Vitor, 13 de Outubro de 2015.

sábado, 10 de outubro de 2015

Crítica: A Travessia, de Robert Zemeckis



A Travessia

Mais um acerto de Robert Zemeckis


Robert Zemeckis já deixou sua marca na história do cinema, sendo um cineasta com uma capacidade invejável de criar narrativas únicas e envolventes, sempre buscando maneiras novas de contar suas histórias, e utilizando a tecnologia em favor da Arte (Trilogia De Volta Para o Futuro e Forrest Gump estão aí para comprovar). E sua carreira acaba de ganha mais um admirável exemplar com esse novo “A Travessia”.

O filme conta a história real do equilibrista Philippe Petit (Joseph Gordon-Levitt), que ficou famoso ao atravessar as Torres Gêmeas usando apenas um cabo. Mesmo sem ter autorização legal para a arriscada aventura, ele reuniu um grupo de assistentes internacionais e contou com a ajuda de um mentor (Ben Kingsley) para bolar o plano, que sofreu diversos obstáculos para poder ser finalmente executado. A travessia ocorreu na ilegalidade em 7 de agosto de 1974 e ganhou destaque no mundo inteiro.

Uma discreta referência
ao Laranja Mecânica.
Filmes americanos que se passam em outros países com personagens de outras nacionalidades sempre se veem diante de um problema: o idioma. Pois fazer um filme em uma língua que não seja o inglês implicaria em uma baixa de bilheteria, tendo em vista que uma boa parte do grande público americano não está acostumada a ler legendas. Sendo assim, filmes como “Operação Valquíria” e “A Menina que Roubava Livros” acabam se prejudicando e soando artificiais ao trazerem personagens falando uma língua que visivelmente não seria a deles. Aqui, o mesmo quase acontece, pois os personagens franceses falam inglês até mesmo entre si, mas pelo menos o roteiro se preocupa em tentar justificar essa decisão: Philippe Petit pede a seus amigos para conversarem em inglês porque ele precisa “treinar” para quando for à Nova York. Não deixa de ser um pouco artificial, mas pelo menos é necessário reconhecer o esforço.

O protagonista, muito bem interpretado por Joseph Gordon-Levitt, é carismático e bem desenvolvido, sem nunca fazer o espectador duvidar que alguém realmente possa ser assim (um erro muito comum em filmes que acompanham artistas emblemáticos), e seu romance com a personagem interpretada por Charlotte Le Bon traz momentos interessantes ainda que se encerre de maneira pouco satisfatória.


É preciso reconhecer também que o roteiro tem vários clichês: o pai de Petit é a caricatura do homem sério que não quer que o filho seja artista, e a cena que leva o jovem a sair de casa é de dar vergonha alheia, tamanha a artificialidade. Além disso, os dois últimos “cúmplices” a se juntarem ao grupo reunido pelo protagonista são a mais pura caricatura dos hippies dos anos 70. 

Já os efeitos visuais são impecáveis (Joseph Gordon-Levitt realmente parece estar andando pelo cabo em todas as cenas do filme e a reconstrução das torres por computação gráfica jamais soa artificial).




Como diretor, Robert Zemeckis cria um interessante clima de deslumbramento e reverência à Arte, que lembra um pouco o clima fantasioso criado por ele em O Expresso Polar, e sua escolha por praticamente não manter a câmera parada, utilizando a tecnologia para criar movimentos que de outra forma seriam impossíveis, não só ajudam a criar uma narrativa em 3D interessante (coisa rara), mas também contribui para o clima de deslumbramento do filme (não dá para esquece que acima de tudo, atravessar as torres gêmeas foi para Petit a realização de seu maior sonho).

E por falar em 3D, esta é uma das poucas vezes que eu diria que vale a pena pagar o ingresso mais caro, pois a técnica aqui ajuda na imersão do espectador na narrativa, especialmente durante a esperada cena da travessia entre as torres, onde acaba sendo fundamental para criar a tensão e sensação de vertigem que o cineasta almeja.


A trilha sonora acerta ao apostar em riffs de guitarra durante as passagens do filme que acompanham os planos dos personagens para “invadir” as torres, pois não apenas gera empolgação e divertimento, como também remete às bandas de rock dos anos 70 (período em que se passa o filme). E a escolha de Für Elise (a famosa musiquinha do gás), de Beethoven, para acompanhar a travessia é linda e ajuda a passar não apenas a leveza do momento, como também o deslumbramento experimentado por todos que acompanharam a façanha.

A opção de quebra da quarta parede (quanto um personagem olha para a câmera e fala diretamente com o público) para a narração do filme parece um pouco esquisita no início, e mesmo não se justificando, pelo menos consegue, conforme a narrativa avança, criar um elo entre o protagonista e o espectador, algo que acaba contribuindo para o impacto dramático da obra.


Terminando com uma palavra que é perfeita para resumir o legado deixado pelo ato de Petit e também fazer uma singela e discreta homenagem ao World Trade Center, “A Travessia” é um filme único, inesquecível, e mesmo com seus problemas, pode facilmente ser considerado como mais um passo certeiro na rica carreira de Robert Zemeckis.

Muito Bom!

João Vitor, 10 de Outubro de 2015. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Crítica: Pecados Íntimos, de Todd Field

Pecados Íntimos é um ótimo filme. Não tanto por ser original ou por trazer uma direção particularmente memorável, mas sim pelo simples fato de que o roteiro reconhece e se apoia em sua melhor qualidade: seus personagens.


Sarah Pierce (Kate Winslet) é casada com Richard (Gregg Edelman), com quem tem uma filha. Um dia, ela conhece Brad Adamson (Patrick Wilson), que é casado e tem um filho com Kathy (Jennifer Connelly). É o início de uma amizade entre eles, que envolve um homem frustrado por estar desempregado e uma mulher infeliz com seu casamento e sua própria vida. Logo esta amizade torna-se um caso extraconjugal.


Como dá para perceber, não se trata das mais originais ou promissoras premissas, mas o roteiro escrito por Todd Field e Tom Perrotta é inteligente o suficiente para reconhecer isso e compensar desenvolvendo com cuidado os vários e complexos personagens.


Sarah é estabelecida como o centro do filme, sendo uma mulher infeliz que finalmente encontra algo novo em sua vida ao se relacionar com Richard, que por sua vez também é profundamente infeliz e imaturo, mesmo que relativamente bem sucedido (ele está desempregado, mas é formado em Direito, e sua esposa trabalha como documentarista). Ainda temos também o personagem Ronnie (Jackie Earle Haley), que é um pedófilo que acabou de sair da cadeia e retorna para a casa, mas se vê incapaz de reconstruir sua vida.


Todas essas dores e frustrações são trabalhadas pelo roteiro com cuidado, nunca caindo no melodrama ou na artificialidade. A narração em off também é muito bem aproveitada (coisa rara), ainda que o monólogo final seja descartável.


Talvez o único erro por parte do roteiro seja a relação de Sarah (Kate Winslet) e seu marido, que, ao contrario do que acontece com o outro casal da trama (Patrick Wilson e Jennifer Connelly), é mal desenvolvida, e em certo momento o filme chega até a jogar um interessante conflito sobre eles, mas apenas para esquecê-lo logo depois.

A direção de Todd Field (que desde 2006, quando este filme foi lançado, não dirigiu mais nada) é segura e consegue criar momentos marcantes (destaque para o plano-sequência envolvendo uma piscina, que ilustra a passagem do tempo de maneira orgânica e original).


As atuações também são ótimas, Kate Winslet consegue conferir sensibilidade a uma personagem que nas mãos de outras atrizes poderia soar antipática, mas a maior surpresa do elenco está em Jackie Earle Haley, um ator pouco reconhecido apesar da carreira extensa, e que compõe aquele que é provavelmente o personagem mais complexo da narrativa.


Encerrando com um desfecho satisfatório, mas que não deixa de soar um pouco decepcionante tendo em vista toda a preparação criada pelo próprio roteiro, Pecados Íntimos é um filme singular, interessante, recheado de personagens complexos e imperfeitos, que não conseguem superar suas próprias imaturidades. É uma pena que o sentido do título original (Little Children – Criancinha) tenha se perdido na tradução, pois de certa forma reflete muito da essência daqueles indivíduos.  

Muito Bom!

João Vitor, 9 de Outubro de 2015

domingo, 9 de agosto de 2015

As Pinturas de Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

Uma das características que mais diferenciam um grande cineasta é sua capacidade de desenvolver cada plano com uma pintura, e Paul Thomas Anderson faz isso com maestria em uma de suas obras-primas, Sangue Negro (2007).
Segue alguns dos quadros mais bonitos do filme, todos dignos de pendurar na parede:

Obs: As imagens podem ser apreciadas melhor em tamanho aumentado, basta clicar em cima.








Uma imagem que define a essência do personagem vivido por Daniel Day-Lewis.






Uma sutil homenagem ao "Rastros de Ódio", de John Ford.
Não foi uma crítica, mas não posso deixar de avaliar: Obra-prima.

João Vitor, 9 de Agosto de 2015.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crítica: Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman



Robert Altman (1925 – 2006) é um cineasta pelo qual eu tenho um respeito muito grande, muito mais pela sua influência do que pelos filmes em si. Admito não ser fã de “Nashville (1975)”, embora goste de “MASH (1970)”, mas também tenho sérios problemas com “Quando os Homens São Homens (1971)”, tido por muitos (inclusive por profissionais que admiro) como uma obra-prima.



Mas independente do meu gosto pelas suas obras, o fato é que ele sempre soube o que estava fazendo, e tinha a capacidade de se manter no controle de sua narrativa mesmo em projetos que nas mãos de outros diretores estariam fadados ao fracasso. E muito mais do que isso, sua influência e importância inspiraram vários de meus diretores favoritos, destaque para Paul Thomas Anderson que em sua obra-prima “Magnólia (1999)” fez várias referências diretas à obra do Altman, e qualquer diretor que tenha influenciado, ainda que levemente, este que é um dos meus filmes preferidos, tem o meu respeito inquestionável.

Assassinato em Gosford Park se passa em uma casa de campo, onde vários membros da alta sociedade britânica, junto com seus serviçais, se reúnem para uma festa de fim de semana, e eventualmente, como o título brasileiro faz questão de adiantar, um assassinato acontece e todos viram suspeitos.

É fácil ler a sinopse do filme, ou apenas ouvir seu título traduzido (o nome original é apenas Gosford Park) e presumir que se trata de um típico suspense policial, onde todos os personagens são suspeitos e no fim o culpado é o menos provável deles.


Mas não se engane, o assassinato só acontece após metade do filme ter se passado, e mesmo quando ocorre não tem tanta importância assim. O filme é muito mais sobre os personagens e sobre a frágil camada de elegância que serve para esconder a podridão dentro deles. Nisto, é impossível não compará-lo ao excelente “Festa de Família (1998)” (foto ao lado), de Thomas Vinterberg, o filme que deu início ao Dogma 95 na Dinamarca, e tinha uma proposta similar.



Os inúmeros personagens de Gosford Park são muito bem desenvolvidos, e Altman consegue transitar pelos seus conflitos com total controle, como já havia demonstrado em vários de seus filmes anteriores. Mas ainda assim, o fato é que o número de personagens é muito alto, e por mais que sejam todos complexos, fica impossível se importar com seus destinos e escolhas, pois não conseguem gerar nenhuma empatia. E isso dá origem ao que é meu maior problema com o Altman: a frieza excessiva.

Eu não tenho problema nenhum com filmes frios, inclusive muitos de meus títulos preferidos têm a frieza como uma das características principais. Além disso, o já citado “Magnólia (1999)” tem como um dos fortes a capacidade de desenvolver simultaneamente um grande número de personagens. Mas Altman faz isso de uma maneira que chegou um ponto do filme em que eu já não estava me importando nem um pouco em relação ao que poderia acontecer com alguém, e nem me perguntando quem cometeu o crime e por quê.


Isso também me afetou muito em seus filmes anteriores. Em “Nashville (1975)”, eu passei duas horas e meia admirando a capacidade do filme de passar para o espectador o clima e o contexto em que vivem os personagens, mas sem conseguir sentir qualquer outra emoção. O mesmo vale para “Quando os Homens São Homens (1971)”, que tem uma trilha sonora incrível e um clima interessantíssimo e dificílimo de ser criado, mas que também não consegue causar o mínimo envolvimento emocional com a trama ou os personagens, o que é uma pena.


A primeira metade do filme se dedica basicamente à construção do clima e ao desenvolvimento e apresentação dos personagens. Já na segunda metade (após o assassinato), a trama vira um suspense policial clássico de “encontrar o assassino”, mas sempre funcionando dentro do contexto e das regras criadas pela primeira parte.

Nenhuma das duas metades é particularmente marcante. A primeira se prejudica pelo excesso de personagens, ainda que a narrativa seja bem conduzida, enquanto a segunda é menos interessante do que qualquer trama policial deveria ser, ainda que traga um ou outro bom momento.

Como um todo, Assassinato em Gosford Park é um bom filme, mas excessivamente frio, que se prejudica pelo seu excesso de personagens ainda que se preocupe em criar um cuidadoso clima.  É uma obra que pode ser admirada, mas em nenhum momento sentida.

O.K
João Vitor, 30 de Julho de 2015.

sábado, 25 de julho de 2015

Crítica: Homem Formiga, de Peyton Reed

              

     Homem Formiga

                         Novo filme da Marvel diverte, mas só.


Nos últimos anos a Marvel vem criando um enorme universo cinematográfico, formado pela união de várias franquias de diferentes super-heróis, onde cada novo filme é uma continuação não só da sua própria franquia, mas também do universo como um todo. Não deixa de ser uma manobra arriscada, tendo em vista que para aproveitar 100% os novos filmes você tem que ter visto um grande número de outros, inclusive de franquias em que você talvez não esteja tão interessado. Mas levando em consideração a bilheteria alcançada pelos filmes, não restam dúvidas de que isso vem funcionando, o que é compreensível já que nos últimos anos as franquias deram origem a filmes bem interessantes e únicos, como “Capitão América 2: O Soldado Invernal” e “Guardiões da Galáxia”. Mas também alguns esforços acabaram resultando em filmes medianos, que se enfraqueciam justamente pelo fato de se sentirem na obrigação de se encaixarem no universo criado pelos outros filmes. E é nesse segundo grupo que entra este novo “Homem Formiga”.



Talvez a maior dificuldade de cada novo filme de super-herói (principalmente para as franquias que estão começando agora) seja conseguir soar original, já que as principais “fórmulas” para criar heróis e, mais ainda, vilões, já foram utilizadas em outros filmes. Então quando logo nos primeiros minutos de projeção somos apresentados a um cientista (Michael Douglas) brilhante que se sente culpado pela perda de alguém querido e luta para que sua descoberta não caia em mãos erradas, um criminoso (Paul Rudd) que deseja deixar o crime para se dedicar à sua filha, e um homem ganancioso (Corey Stoll) que quer usar a tecnologia para enriquecer sem pensar nas consequências, podemos então perceber que não estamos diante de um filme particularmente original.


Mas isso acaba nem sendo um problema tão sério assim, já que desde o início o diretor Peyton Reed conduz a narrativa com total segurança, brincando muito bem com o gênero Assalto, e utilizando muito bem o 3D (principalmente nos momentos em que o herói está do tamanho de formigas), sem apelar para câmera tremida e sempre deixando claro para o espectador durante as cenas de ação o que está acontecendo e quem está aonde, algo que vem se mostrando uma grande dificuldade para novos diretores. Mas ainda assim, não posso deixar de imaginar o que Edgar Wright (que se demitiu pouco antes do início das filmagens devido a diferenças criativas) estava preparando, levando em consideração seus antecedentes (“Scott Pilgrim Contra o Mundo” e “Todo Mundo Quase Morto”) e sua facilidade em brincar com gêneros e elementos narrativos de quadrinhos. Mas é claro que isto também não diminui o trabalho de Reed, que é competente de qualquer maneira.


O elenco do filme é extremamente talentoso, mas infelizmente não é o bastante para encobrir as caricaturas que são os personagens (como apontei há dois parágrafos acima), mas fazem o que pode para fazer soarem genuínos os diálogos expositivos e a trama extremamente previsível.


Dentre os personagens, o maior erro é sem dúvidas o amigo do herói, Luís (Michael Peña), que é a caricatura do latino que já foi utilizada por Hollywood em inúmeros outros filmes. Além do mais, ele existe única e exclusivamente para alívio cômico, e ainda que protagonize alguns bons momentos (como quando conta ao amigo o enorme “telefone sem fio” que o fez ficar sabendo de determinado assunto), também é o responsável por muitas das piores piadas do roteiro, e o fato de ele ser o responsável pela última fala do filme, que imediatamente traz os créditos finais, faz com que o espectador saia da sala com um gosto amargo.


Mas talvez o principal erro do filme seja justamente a necessidade de se encaixar no universo Marvel e garantir futuras continuações, já que as ligações com os filmes anteriores soam gratuitas e tiram o foco da trama principal, e o filme inteiro parece servir apenas para apresentar os personagens de modo a poder usá-los nos próximos projetos de outras franquias. Muito provavelmente o resultado teria seria muito melhor se a trama se passasse em um universo paralelo e se preocupasse em se sustentar sozinha com bons personagens e uma premissa original, sem se preocupar com uma possível sequência.


Aliás, ao que tudo indica o Homem Formiga e mais alguns de seus principais personagens devem estar presentes nos próximos filmes da Marvel. Se o excesso de personagens já era um problema em Vingadores 2, Vingadores 3 está indo para um beco sem saída.

Mas apesar de todos esses problemas, “Homem Formiga” é sim um filme divertido. A narrativa é leve e agradável, as cenas de ação funcionam, e o clímax, mesmo que um pouco maior do que o necessário, é inventivo e consegue empolgar. Além do mais, Paul Rudd tem um talento cômico nato, algo que o filme explora muito bem, impedindo que a narrativa fique desnecessariamente artificialmente e densa.

Já a cena em que o herói encolhe pela primeira vez é, sem dúvida, um dos melhores momentos em 3D que em já vi no cinema. Aliás, as todas as cenas que trazem o herói em tamanho reduzido são de longe as melhores do filme.

As referências (tanto a outros filmes da Marvel quanto várias outras coisas) funcionam esporadicamente (destaque para a menção sutil à recente notícia de que o Homem Aranha vai se juntar aos Vingadores), mas em alguns momentos o filme faz questão de esticá-las até que percam à graça.



Mesmo se prejudicando pela necessidade de se encaixar no universo Marvel, “Homem Formiga” é um filme divertido e agradável, que sem dúvidas não irá decepcionar os fãs de quadrinho que aguardam ansiosamente cada novo filme de super-herói. Agora só resta torcer para que, assim como “Capitão América” e “Thor”, a franquia consiga melhorar em sua inevitável continuação.

P.S: A cena durante os créditos só existe porque já virou obrigação de todo filme da Marvel, já que o próprio filme já dá inúmeras pistas de aquilo iria acontecer. Já a cena pós-créditos nada mais é do que um “mini-tease-trailer” para o filme do Capitão América do ano que vem.

O.K

João Vitor, 25 de Julho de 2015.