domingo, 26 de fevereiro de 2017

Crítica: A Qualquer Custo, de David Mackenzie

É sempre natural que os filmes e as obras de arte em geral reflitam a realidade em que foram produzidos, fazendo com que importantes acontecimentos históricos sejam sempre temas recorrentes na filmografia de suas épocas (a alegria do fim da segunda guerra nos anos 40-50, a desilusão com o governo e a guerra do Vietnã nos EUA na década de 60-70, medo nuclear durante a guerra fria, etc.). Sendo assim, é interessante notar como este novo A Qualquer Custo usa uma estrutura aparentemente simples para retratar todo o ressentimento e descrença para com os grandes bancos após a crise de 2008.


O roteiro escrito por Taylor Sheridan (do excelente Sicário) se passa nos dias atuais e acompanha uma dupla de irmãos que para não perderem a fazenda da família no Texas decidem cometer uma série de assaltos a bancos.

Em sua estrutura, A Qualquer Custo pode parecer um filme convencional: temos um xerife experiente prestes a se aposentar, seu parceiro de longa data, uma dupla de assaltantes onde um é mais impulsivo e violento enquanto o outro é mais hesitante e tem preocupações com os filhos... Mas a verdade é que há muito mais complexidade nessas figuras do que a princípio pode parecer, e o roteiro funciona como um retrato da ruína do “American Dream”.

Primeiro, e mais óbvio, o fato de os irmãos estarem prestes a perderem sua moradia para os bancos (e estes também serem os alvos de seus assaltos) reflete todo o ressentimento de grande parte da população que se viu obrigada a pagar por uma crise provocada por grandes corporações.  E, além disso, o filme também comenta sobre a ruína da “família tradicional americana”, como ao deixar subentendido que os dois irmãos cresceram com um pai abusivo (o que posteriormente levou um deles a assassina-lo!), ou então ao trazer seu protagonista como uma figura que mantém uma relação completamente distante de seus próprios filhos.

E também é interessante como o filme acaba comentando sobre a história dos EUA e seu ciclo vicioso: em determinado momento, por exemplo, vemos um personagem de descendência indígena dizendo (ainda que de maneira um tanto quanto expositiva demais) que seus ancestrais tiveram toda sua propriedade roubada pelos europeus, e que agora os descendentes destes europeus estão tendo suas propriedades roubadas pelos bancos.

Sendo assim, é curioso notar como o filme traz em certo momento o xerife interpretado por Jeff Bridges andando contra o vento enrolado em um cobertor: a imagem nos remete imediatamente a uma capa de super-herói clássico – mas em um mundo pós-crise (moral e econômica), nada mais apropriado do que o “herói” (ou pelo menos o que está do lado da lei) do filme ter sua capa substituída por um pano velho e desbotado.

Outra coisa que se destaca no filme é o excelente timing do diretor David Mackenzie para escolher música, sendo particularmente marcante a cena que traz uma explosão de violência ao som de um rock n’ roll que está sendo tocado no som do carro de um personagem.


E enquanto a fotografia de Giles Nuttgens é eficiente em evocar o calor escaldante do Texas, o design de produção ajuda a retratar visualmente a temática do filme, como ao trazer elementos como pichações contra a guerra do Iraque em muros, propagandas de serviços financeiros para ajudar a pagar hipoteca, e (o meu preferido) traz de maneira discreta no canto de uma escrivaninha de banco uma plaquinha com a frase “Você é sempre bem-vindo aqui”, num toquezinho de ironia muito coerente com o restante da narrativa.

O elenco também não fica para trás. Ben Foster oferece talvez a melhor performance de sua carreira, vivendo seu personagem com uma intensidade absurda, mas que tem a oportunidade de trazer complexidade dramática em uma cena em que fala sobre sua mãe. Já Jeff Bridges (que deve conseguir uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante) está excelente com sempre, e apesar do sotaque carregadíssimo, consegue passar toda a experiência e competência de seu personagem.

Conseguindo ainda comentar tangencialmente o fascínio americano por armas de fogo, A Qualquer Custo é um filmaço, que traz uma ação frenética, mas não perde o fôlego ao apostar em seus personagens, funcionando como um retrato devastador de sua sociedade e de sua época.

Ótimo!


João Vitor, 28 de Dezembro de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: A Chegada, de Denis Villeneuve

Se tem alguém no cenário cinematográfico atual que pode facilmente ser comparado a grandes nomes da história do cinema, este alguém é Denis Villeneuve. Dono de uma carreira relativamente curta, mas que vem acumulando cada vez mais obras primas, o diretor canadense já se estabeleceu como um dos melhores profissionais de sua geração.


E este novo A Chegada não deixa nada a desejar, sendo talvez o seu trabalho mais ambicioso do ponto de vista temático, oferecendo uma experiência delicada e melancólica, e que ao mesmo tempo também é reflexiva e poética.

O roteiro escrito por Eric Heisserer e adaptado de um conto de Ted Chiang acompanha a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista que é convocada pelo governo americano para tentar estabelecer contato com misteriosas naves alienígenas que pousaram em vários locais diferentes ao redor da Terra.

Melancólico desde seus segundos iniciais, que acompanham a relação da protagonista com sua filha desde seu nascimento até sua morte precoce na adolescência, o filme aposta em uma fotografia toda acinzentada e desprovida de cores, trazendo constantemente o quadro cheio de sombras que podem simbolizar tanto o mistério em que os personagens estão envolvidos (e que pode ou não envolver uma ameaça) quanto a tristeza que parece sempre rondar a protagonista (simbolizada também por seus flashes de memória envolvendo momentos com a filha – e aqui a montagem de Joe Walker se mostra primorosa, já que encaixa esses flashes de maneira orgânica e dinâmica na narrativa, adicionando complexidade dramática ao filme ao invés de desviar a atenção da trama).

O trabalho de efeitos visuais também merecem créditos, principalmente por não chamarem a atenção para si e se encaixarem de maneira orgânica às necessidades da trama (gosto particularmente da cena que envolve uma inversão de gravidade dentro da nave, e outra que envolve um plano aéreo que nos mostra pela primeira vez o objeto voador alienígena).

Já a trilha sonora do sempre competente Jóhann Jóhannsson acerta por equilibrar muito bem o mistério e possível ameaça representada pelos aliens com a tristeza melancólica da protagonista, sendo eficiente quando tenta emocionar (as melodias em cordas que acompanham os primeiros minutos de projeção são lindas) e também quando pretende criar tensão (mais uma vez, assim como acontecia em Sicário, apostando em sons graves pesados, mas agora os deixando mais dissonantes e desconfortáveis).

Mas apesar do primor técnico, isso não teria o mesmo valor se não fosse pela direção inteligente de Denis Villeneuve. Equilibrando aqui os principais elementos de seus últimos trabalhos (o drama opressivo de Os Suspeitos, a subjetividade instigante de O Homem Duplicado, e a tensão absoluta de Sicário), o diretor conduz o filme de maneira segura e precisa, conseguindo até brincar com “Forma vs Conteúdo”: reparem, por exemplo, no uso de círculos ao longo do filme – não só os personagens comentam sobre isso (“Eu achava que era o fim, mas era apenas o começo” diz a protagonista logo no início da projeção), como também a forma de comunicação dos alienígenas é através de figuras circulares, a estrutura do filme (aqui dão darei detalhes para evitar spoilers) também é de certa forma circular, e em interpretações mais livres pode-se ainda enxergar relação com o “ciclo da vida” (que também é um dos temas do filme), e ao terminar a projeção, basta uma reflexão sobre o que acabou de ver que você com certeza encontrará mais figuras circulares na obra (boa parte do fascínio do filme está em descobri-las por si mesmo). Além disso, o diretor ainda é hábil ao fazer o espectador se identificar com a protagonista utilizando diversos recursos que são até simples, mas poucos diretores pensariam em utilizar – desde o mais óbvio uso de câmera subjetiva (aquela que nos faz enxergar tudo com os olhos da personagem), até alternativas mais sofisticadas, como ao fazer o espectador ouvir através dos ouvidos da protagonista (destaque para a cena que se passa em um helicóptero, onde o barulho do motor e os sons do rádio são retratados de acordo com a percepção da personagem).


No elenco temos uma performance delicada e triste de Amy Adams (que se contrapõe com seus trabalho habituais, onde normalmente aparece como uma figura cheia de vida e energia), que acerta também por conseguir equilibrar o fascínio em relação à linguagem dos alienígenas e a dúvida e melancolia que parecem inerentes à personagem. E enquanto Forest Whitaker e Michael Stuhlbarg oferecem interpretações bem mais contidas do que o habitual e se saem muito bem, Jeremy Renner, que interpreta um físico, traz leveza e sensibilidade ao seu personagem e o impede de parecer uma figura excessivamente racional e fria.

Poético, melancólico, e cada vez mais rico depois de reflexões, A Chegada é possivelmente o melhor filme de 2016, compreendendo a complexidade temática de sua história e também a força dramática de seus personagens, oferecendo uma experiência intensa, triste e enriquecedora.

Excelente!

João Vitor, 24 de Novembro de 2016.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: A 13ª Emenda, de Ava DuVernay

Em meus textos nunca digo coisas como “vá ver este filme” ou “fuja de tal filme”, pois acredito que não é papel de um crítico de cinema dizer ao público qual filme ele deve ver, e sim o fazer enxergar coisas novas nos filme que já viu, sejam bons ou ruins, e assim ter uma experiência mais envolvente e enriquecedora. Porém, como no cinema não há regras, com este documentário 13ª Emenda vou me contradizer: vá ver este filme!


Não que seja uma obra-prima, ou o melhor filme do ano, mas é um filme importante, que expõe não apenas opiniões embasadas, mas fatos incontestáveis que deveriam ser de conhecimento coletivo.

O objetivo do documentário é a princípio simples, mas se mostra cada vez mais complexo conforme o estudo vai se aprofundando: tentar entender como a 13ª Emenda Constitucional dos Estados Unidos (a que pôs fim à escravidão) na verdade foi responsável por criar a maior população carcerária do mundo, contribuindo inclusive para a desigualdade racial depois do fim da segregação.

A direção é de Ava DuVernay, uma das principais promessas da nova geração do cinema americano, responsável pelo excelente Selma (que também tratava diretamente de questões raciais) e pelos belos Middle of Nowhere e I Will Follow (estes dois disponíveis também na Netflix brasileira). Sua abordagem estética é muito interessante, mesmo que discreta: ao filmar os entrevistados, por exemplo, ela alterna planos mostrando a pessoa diretamente de frente e outros que a mostram de perfil, algo que não apenas é interessante visualmente, como ainda dialoga de maneira orgânica com as clássicas fotos de presidiários – e como o filme fala sobre prisão, e como qualquer um pode acabar sendo preso injustamente, nada mais apropriado. Além disso, a diretora ilustra de maneira muito dinâmica alguns dos dados apresentados pelo filme com animações, de modo a reforçar o absurdo destes, o que se mostra surpreendentemente eficaz e orgânico.

Mas o que faz o filme ser tão importante são os dados que ele expõe, que por mais que não sejam novidade, muitas vezes passam despercebidos por boa parte da população: como ao mostrar que enquanto 1 em cada 40 homens brancos estão presos, entre os negros esses números passam para 1 em cada 16. Outro dado importante e incontestável apresentado pelo filme são aqueles que expõem como a dita “guerra às drogas” ao invés de diminuir o consumo, apenas causou um aumento absurdo da população carcerária: enquanto no início dos anos 70 (quando Nixon declarou essa tal de “guerra às drogas”) haviam cerca de 300 mil pessoas presas no país, hoje esse número está em 2,3 milhões.

Mas o filme também não se rende à ingenuidade de retratar os republicanos como os vilões e os democratas como mocinhos, já que mostra que apesar de as principais leis responsáveis pelas prisões desproporcionais terem sido criadas nos governos Nixon e Reagan, o próprio Bill Clinton adotou uma visão moralista para se eleger após os democratas terem perdidos três eleições seguidas, e pôs em prática muitas coisas que possibilitaram o aumento da população carcerária.

E não esquecendo que estava em ano de eleição, Ava DuVernay também mostra que ambos candidatos concorrendo à presidência não estão muito preocupados em resolver este problema: enquanto Hillary Clinton aparece fazendo algumas declarações comprometedoras, Donald Trump se mostra mil vezes pior, já que foi capaz de fazer propaganda pedindo pena de morte para um grupo de jovens negros, que depois foram provados inocentes. Além disso, a sequência que o traz fazendo um discurso moralista sobre “os bons velhos tempos” enquanto a montagem intercala momentos racistas de décadas passadas, ilustra de maneira perfeita como o ciclo do preconceito nunca chega ao fim.


Trazendo também comentários extremamente reveladores de um membro do governo Nixon sobre como a “guerra às drogas” foi um disfarce para uma perseguição política, e ilustrando de maneira muito didática o racismo constitucional americano, 13ª Emenda é um filme envolvente e emocionante, mas acima de tudo, necessário.

Muito Bom!


João Vitor, 21 de Janeiro de 2017.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi, de Michael Bay

13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi é um típico filme do Michael Bay: é sexista, ufanista, cheio de cenas de ação incompreensíveis, e cai no esquecimento um dia depois de ser visto.


O filme acompanha alguns soldados da CIA durante o ataque terrorista em Benghazi, em 2012, e, bem... é só isso que dá pra falar da trama do filme, já que nada de interessante acontece e os personagens nada mais são do que instrumentos para não deixarem as explosões pararem.

O trabalho de direção de Michael Bay segue todos os artifícios que ele sempre usa em seus filmes de ação: há diversos planos aéreos em alta velocidade, panorâmicas, e sequências de ação filmadas em ângulos tortos, com câmera tremida e cortes rápidos, o que deixa as coreografias das cenas completamente incompreensíveis. E, o que é mais grave, ao apostar em uma montagem que corta de um plano para outro em intervalos minúsculos de tempo, o diretor faz com que não seja possível nem mesmo admirar algumas imagens esteticamente mais interessantes. Ainda que, é necessário admitir, às vezes ele ache espaço para alguns conceitos interessantes, como no plano que acompanha dois soldados que são mortos com tiros na cabeça e caem na piscina enquanto a câmera mergulha com eles sem cortes.

E enquanto a fotografia faz um bom trabalho em evocar o clima escaldante das locações (a opção de colocar, em diversos momentos, os personagens “emoldurados” pelo sol também é bacana, ainda que ultrapassada), a trilha sonora tem algumas ideias interessantes, como ao trazer sons que simulam batidas de coração de maneira sutil, mas na maior parte do tempo não passa do óbvio e ainda cai no melodrama ao acompanhar as breves cenas que envolvem a família do protagonista – e sua obviedade contribui para que os personagens não passem de figuras unidimensionais.

Já do ponto de vista de roteiro o filme é um desastre total. Além da construção de personagem genérica (a única coisa que o protagonista tem de humano é sua família, mas isso é tratado de maneira tão superficial e desinteressada pelo filme que não adianta nada), o texto ainda traz um ufanismo que beira o caricatural: como ao se referir a “vidas americanas” como se essas valessem mais do que as outras, ou então ao trazer terroristas praticamente interrompendo seus ataques para ficar atirando na bandeira dos Estados Unidos (quem iria se dar ao trabalho de no meio de explosões e tiroteios parar para atirar em um pedaço de pano?). Isso para não falar do machismo escancarado do filme: enquanto a única figura feminina de destaque é uma pessoa histérica e que sempre tem seus erros corrigidos por homens, todos os personagens principais ostentam um preconceito que só os tornam mais antipáticos para o público, como ao trazer diálogos sobre como é bom ter filhos homens, ou então sobre como “meninas não bebem”, e por aí vai...

Não trazendo nada de novo do ponto de vista técnico e sendo reprovável no sentido moral, 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi é um filme antipático, desinteressante, e que faz suas duas horas e vinte parecerem intermináveis.

Muito Ruim!
João Vitor, 21 de Fevereiro de 2017.

Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/

Crítica: Jackie, de Pablo Larraín

Um filme não precisa ser eletrizante para ser bom, e Jackie é a prova disso. Tendo um ritmo vagaroso, que em alguns momentos até flerta com o entediante, o filme não deixa de ser um estudo de personagem interessante, que conta com uma excelente atuação central em uma narrativa bastante sofisticada.


O roteiro escrito por Noah Oppenheim acompanha a personagem título, a ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy, nos dias seguintes ao assassinato de seu marido, John F. Kennedy. A estrutura do roteiro é bastante convencional: temos a protagonista dando uma entrevista e conforme ela vai narrando ao repórter vemos em flashbacks suas memórias envolvendo o assassinato e suas consequências para ela, mas o que é interessante é que o filme não está interessado em fazer algo grandioso, mostrando as consequências políticas em grande escala dos acontecimentos, e traz uma proposta mais intimista, que se preocupa muito mais com o psicológico de uma só pessoa – e nisso ele se sai incrivelmente bem.

A direção do chileno Pablo Larraín (dos ótimos O Clube, No, e Tony Manero) é bastante competente e cheia de personalidade, fazendo um bom trabalho ao diferenciar esteticamente os dois momentos em que se passa a história: enquanto no “presente”, que mostra a personagem dando a entrevista, ela aposta no convencional “plano e contra-plano” (mas com o diferencial de sempre manter ambos os personagens no centro da tela), os flashbacks utilizam muito mais steadycam (que dá a sensação de câmera “levitando”) que imprimem um caráter mais fantasioso e inquieto. Outro acerto do diretor é não se render ao melodrama com uma trilha sonora óbvia ou momentos artificiais em câmera lenta – o momento mais forte do filme (aquele que traz a personagem se limpando do sangue do marido), por exemplo, é filmado em close e depende quase que inteiramente da performance de Natalie Portman, que merece aplausos tanto pela intensidade com a qual se entrega à personagem quanto pelo primor técnico de sua atuação (reparem como até mesmo sua dicção é calculosamente preparada para emular o sotaque da Jackie verdadeira, sempre com as vogais mais abertas do que o usual).


E enquanto a fotografia se aproveita do fato de o filme de passar no inverno para evocar melancolia de suas cores frias (sem contar os momentos sublimes como aquele que segue a protagonista em um cemitério cheio de névoa, e que consegue ser ao mesmo tempo triste e belo), a trilha sonora foge do convencional, que seria apostar em instrumentos agudos como violinos, e utiliza quase sempre sons graves, como violoncelo. Além disso, é interessante como as melodias constantemente fazem movimentos decrescentes, partindo de uma nota mais alta e depois escorregando para uma nota baixa – o que reflete o estado de espírito da protagonista que se sente pesada, como se o mundo estivesse desabando em suas costas.

E são por esses primores técnicos que Jackie acaba sendo tão eficiente. Pode até ter um ritmo lento, mas se apreciado com atenção vai se mostrar um filme sofisticado, delicado, e comovente.

Muito Bom! 


João Vitor, 26 de Fevereiro de 2017.

Crítica: Moonlight, de Barry Jenkins

“In moonlight black boys look blue”

Esta frase, que dá nome à peça em que o filme Moonlight foi adaptado, traduzida literalmente ficaria “Na luz do luar, garotos negros ficam azul”, mas no inglês ganha um duplo sentido, já que a palavra “blue” pode também significar “triste”, assim a frase poderia ficar “Na luz do luar garotos negros ficam tristes”.

E é nessa delicadeza que este filme se baseia, sendo um estudo de personagem delicado, que não se rende à saídas fáceis, e cria uma narrativa delicada que comove pela aparente simplicidade, mas que na verdade esconde uma grande sofisticação.


O roteiro tem uma estrutura de três atos que a princípio lembra bastante a do filme O Lugar Onde Tudo Termina (excelente, por sinal) por se passar em três tempos distintos: a primeira parte segue o protagonista em um pedaço de sua infância (vivido por Alex R. Hibbert), mostrando sua dificuldade de socialização com outras crianças, sua relação complicada com a mãe viciada em drogas (Naomie Harris) , e o encontro de uma nova esperança na figura de um traficante (Mahershala Ali), que o trata com carinho; a segunda o acompanha em sua adolescência (interpretado por Ashton Sanders), onde também sofre bullying na escola, e começa a descobrir sua própria sexualidade; já a terceira e última o segue na fase adulta (agora vivido por Trevante Rhodes), onde vemos em quem ele se tornou depois de tudo pelo que passou.

O que mais emociona no filme é sua delicadeza e naturalidade em retratar os acontecimentos na vida se seu personagem principal, já que não apela para melodrama ou momentos artificiais para conseguir o que quer. Dessa forma, a trajetória do personagem não é só algo que impressiona como cinema, mas também convence como a trajetória e a formação de caráter de um pessoa real.

A abordagem estética do diretor Barry Jenkins também é ótima, variando momentos mais “convencionais” (mas que funcionam muito bem) de câmera na mão que reforçam a inquietação e desconforto do protagonista, com outros momentos que lembram bastante o estilo de Terrence Malick, onde a própria câmera parece deslumbrada com o que está vendo. E a fotografia também merece créditos não apenas pela beleza estética, como, principalmente, por brincar com a cor azul – o que dialoga com o título do filme e também com o título da peça, que é citado por certo personagem em determinado momento da projeção.

A trilha sonora também é linda, equilibrando a beleza dos instrumentos de corda com melodias dissonantes e desconfortáveis, se equilibrando apropriadamente entre o belo e o inquietante. Já o design de produção faz um ótimo trabalho em diferenciar a casa do protagonista, que é cheia de azulejos velhos e sujos, com a casa do personagem de Mahershala Ali, que é bem mobiliada e aconchegante – e o design de som também merece créditos por ajudar a fazer deste ambiente um local agradável, incluindo discretos sons de pássaros que reforçam a tranquilidade do lugar.

Já os figurinos comentam de maneira discreta a situação emocional dos personagens: trazendo muitas vezes a cor branca para refletir a inocência do protagonista em sua infância, e também camisetas xadrez em sua adolescência para comentar seu “aprisionamento” emocional (principalmente em relação à sua sexualidade) – e é interessantíssimo notar como após o momento onde o personagem finalmente se permite um pouco de liberdade, e tem seu primeiro contato sexual, na cena seguinte ele abandona seu figurino xadrez, e veste uma camiseta apenas com listras, como se tivesse se livrado parcialmente de sua prisão. Da mesma forma, quando o personagem resolve agir de maneira impulsiva em uma vingança, ele surge vestido uma camiseta azul sem listras: o que o liberta das grades momentaneamente, mas comenta sua tristeza (lembrando que “blue” em inglês tem significado duplo).


Outra coisa que faz do filme uma experiência marcante e delicada é seu forte elenco. Enquanto os três atores que interpretam o protagonista encontram uma coesão impressionante em seus trabalhos, Naomie Harris impressiona pela sutileza e por não apelar para estereótipos genéricos de “viciada em drogas”, podendo ainda, no terceiro ato, protagonizar um momento fortíssimo onde transborda os arrependimentos de sua personagem, além disso, seu emagrecimento é impressionante e orgânico para o filme. Já Mahershala Ali, um dos favoritos para o Oscar de Ator Coadjuvante, subverte o clichê do traficante durão, retratando seu personagem como uma pessoa complexa, capaz de uma humanidade doce, e consegue ser marcante mesmo com pouco tempo de tela.

Sendo um delicado e complexo estudo de personagem, que emociona pela sua sutileza e por sua beleza, Moonlight é um filme memorável, que oferece uma experiência intensa, mas que fica ainda melhor depois que acaba e é submetido à reflexões.

Ótimo!


João Vitor, 22 de Janeiro de 2017.

Crítica: Até o Último Homem, de Mel Gibson

Logo na primeira cena de Até o Último Homem vemos uma violência extrema, com uma narração em off de caráter religioso e uma música heroica tocando ao fundo – já é o suficiente para que, em poucos segundos, possamos perceber que se trata de um filme de Mel Gibson, conhecido justamente por gostar de histórias violentas que trazem seu protagonista como um grande herói, disposto a tudo para fazer o que é certo. E a maior virtude deste seu novo filme é justamente o fato de ser uma história (real, diga-se de passagem) nas mãos do diretor certo, que a conta com uma vontade pulsante, e que mesmo com alguns problemas, oferece uma experiência intensa e marcante.


O roteiro é escrito por Robert Schenkkan e Andrew Knight e conta a história real de Desmond T. Doss, que durante a segunda guerra se alistou no exército, mas se recusava a pegar em armas por convicções religiosas. Porém isso não o impediu de participar da Batalha de Okinawa, e, com seus conhecimentos médicos, salvar mais de 75 soldados americanos, sendo condecorado depois com a Medalha de Honra.

O filme tem uma estrutura atípica de dois atos: o primeiro segue o protagonista em sua vida no interior da Virgínia, mostrando seu relacionamento com o pai abusivo, que é veterano da Primeira Guerra, e seu casamento com uma jovem enfermeira. Já o segundo o acompanha no exército, tanto em seu treinamento quanto suas ações no campo de batalha.

Os dois atos propositadamente se contrastam muito: enquanto o primeiro é cheio de inocência, com uma fotografia iluminada (que chega até a trazer janelas com luzes brancas estourando) e com direito até a “beijo entre as nuvens” (você entenderá quando vir o filme), o segundo é brutal, estourando a ação de uma hora para a outra, com uma violência extrema, com cadáveres cheios de larvas, membros destroçados, tripas explodindo, e por aí vai...

Na parte técnica o filme é excelente: enquanto a tensão “pré-combate” é evocada com eficiência pela trilha sonora, com sons graves e sombrios, a ação apropriadamente se inicia de forma abrupta (afinal, deve ser assim que acontece em batalhas reais) – o que reforça o impacto da violência que cerca o personagem principal. E o trabalho de som é digno de aplausos pelo número de ruídos diferentes que consegue incluir nas batalhas sem nunca parecer confuso (no meio de tiros, explosões e gritos tem até lança-chamas!).


Já o roteiro tem seus altos e baixos: por um lado, faz um ótimo trabalho ao mostrar como a guerra prejudica irreversivelmente o psicológico de uma pessoa (o “queria que você o tivesse conhecido antes da guerra” que a mãe do protagonista diz se referindo ao seu marido é bastante doído), por outro suas tentativas de humor falham completamente (como na inexplicável referência a O Mágico de Oz em um momento pré-batalha) e o texto é ridiculamente unidimensional ao retratar todos os japoneses do filme (e não são poucos) como verdadeiros monstros psicopatas, sem nada a perder – algo que Mel Gibson realça ao trazê-los sempre atacando gritando, e com olhos arregalados.

E se o zoom in que o diretor utiliza enquanto um personagem faz um monólogo é batido e tolo, a opção de trazer o protagonista literalmente rebatendo granadas no meio de uma batalha é exagerada até mesmo para os padrões do filme.



Mas o elenco também é forte: Andrew Garfield além de convencer com um sotaque completamente diferente do seu (ele originalmente tem um sotaque quase britânico, enquanto seu personagem é um sulista americano), também estabelece uma ótima dinâmica com Teresa Palmer, que interpreta sua esposa, trazendo humanidade e vulnerabilidade para seu personagem, o que é importantíssimo dentro da proposta do filme. E enquanto Vince Vaughn surpreendentemente convence como “militar durão”, Hugo Weaving é beneficiado pelo roteiro e compõe um personagem multidimensional que atrás do clichê de “pai abusivo” traz seus próprios traumas e motivações pessoais.


Tendo sua parcela de erros e exageros, que de certa forma são até esperados de um filme do Mel Gibson, mas também seus indiscutíveis méritos cinematográficos, Até o Último Homem é um filme que por estar na mão do diretor certo, explora ao máximo suas virtudes e se mostra uma experiência interessante e envolvente.

Muito Bom!

João Vitor, 25 de Fevereiro de 2017.