Um remake de um clássico dirigido
pelo diretor responsável por um desastre como Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros – isso por si só já é o
suficiente para deixar qualquer cinéfilo apavorado. Mas felizmente este novo Ben-Hur é um filme decente, que mesmo
desnecessário e recheado de defeitos, tem momentos verdadeiramente inspirados e
demostra uma excelente evolução de seu diretor em relação ao seu último
trabalho.
A história é a que muitos já
conhecem: Ben-Hur é um príncipe judeu que vive na Jerusalém dominada pelos
romanos na mesma época de Jesus Cristo, e que depois de ser traído por seu
irmão adotivo e escravizado durante anos, vai em busca de vingança.
Se iniciando com diversos
diálogos fraquíssimos, que por beirarem o teatral dão a impressão de que nenhum
personagem pensa para falar, o roteiro escrito por John Ridley e Keith Clarke
tem suas falhas e seus méritos. Por um lado, a relação criada entre Ben-Hur e
seu irmão adotivo Messala é humana e plausível (embora com bem menos camadas e
sutilezas do que na versão de 1959), por outro, a relação do protagonista com
sua amada e suas familiares (que representavam grande parte da força dramática
da versão clássica) aqui é superficial e secundária. Além disso, ao tentar
justificar demais a traição cometida por Messala, o roteiro acaba tornando-o um
vilão bem menos detestável do que o esperado – o que, obviamente, enfraquece o
tema central do filme (vingança) e também sua mensagem final (dão darei
detalhes para evitar spoilers, ainda que a história já seja conhecida).
A direção de Timur Bekmambetov,
cineasta do Cazaquistão (fãs de Borat não conseguem evitar um sorriso ao ouvir
esse nome), é muito feliz ao incluir energia nas sequências de ação através de
recursos simples – como ao dosar muito bem os momentos que trazem a câmera
posicionada no meio de alguma luta, mas sempre evitando muita tremedeira
confusa, ou ao filmar uma complexa sequência ambientada em um grande barco toda
através do ponto de vista do protagonista, que se encontra amarrado no porão (o
que evita um excesso de computação gráfica, e ainda dá a dimensão grandiosa do
que está acontecendo – aumentando a vulnerabilidade dos personagens).
Além disso, vale dizer que Bekmambetov
ainda demonstra certo domínio da tecnologia 3D (algo raro até para cineastas
experientes), pois além de a história se passar quase todo de dia e trazer uma
fotografia que valoriza as cores, efeitos como neve ou grãos de poeira
enriquecem o visual em terceira dimensão. E se cineastas como David Yates (em A Lenda de Tarzan) precisam quebrar a
lógica estética do filme para tentar justificar o 3D (como ao incluir planos em
primeira pessoa sem necessidade alguma), aqui Bekmambetov deixa a câmera
subjetiva surgir de maneira natural, e não chama a atenção para si – como
quando acompanhamos o protagonista caindo de um barco para o mar, e de repente
estamos vendo tudo com os olhos dele sem que tenhamos percebido a “manobra” do
diretor.
O trabalho de designe de produção
evita um pouco um clima épico (talvez para não gerar muitas comparações com o
filme de 1959), mas convence ao criar um ambiente plausível e cotidiano para os
personagens (os planos aéreos de Jerusalém não chegam a ser imponentes, mas são
sem dúvidas convincentes). Já a trilha sonora à la Hans Zimmer de Marco
Beltrami é eficiente ao passar a imponência das tropas romanas, mas cai no
óbvio nas cenas mais dramáticas.
No elenco temos Jack Huston como
Ben-Hur, que faz um trabalho bastante eficiente durante a primeira meia hora ao
evocar fragilidade e compaixão para seu personagem, o que o deixa humano e de
fácil identificação. Mas ao passar a ser motivado por vingança e ódio, o ator
não convence, já que a única coisa que muda em seu personagem é sua
caracterização e sua voz sempre rouca (e aqui é impossível evitar a comparação
com Charlton Heston na versão clássica, que fazia um trabalho admirável ao
utilizar a vingança e o ódio do personagem como armadura para vencer suas
dificuldades – e o fato de o vilão ser mais detestável também o beneficiava).
E enquanto Toby Kebbell se
prejudica por ter em mãos um vilão que não é tão aproveitado pelo roteiro
quanto poderia, Rodrigo Santoro, por sua vez, vive ninguém menos que Jesus
Cristo, e o faz muito bem – e a opção de deixar de lado a áurea mística em
torno do personagem e apostar em uma abordagem mais humana, é uma decisão
corajosa e eficiente do filme. Já Morgan Freeman está completamente no piloto
automático, sem contar que é impossível levar a sério dramaticamente um
personagem com uma caracterização daquela.
Se iniciando e terminando com uma
narração em off completamente brega, Ben-Hur
é eficiente enquanto é um filme de ação e falha um pouco ao tentar ser um
drama. Evita comparações com a versão clássica de William Wyler, e tem uma ou
outra coisa nova, não chega a ser o suficiente para justificar o remake, mas é
o bastante para deixá-lo recomendável de se ver.
O.K. |
João Vitor, 24 de Agosto de 2016.
Crítica originalmente publicada no site Pipoca Radioativa: http://pipocaradioativa.com.br/
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